Navegação de Cabotagem
Bahia, 1963.
Na banca de j ornais de Ibrahim , com una exaltado, na Praça Municipal, exposta, aberta nas páginas da entrevista, exibindo a foto do filósofo, a revista vendida ao preço de 500 réis o exem plar. Ufano, Pedro Rego vai e vem pela rua Chile à cata de pacóvios ou de bonacheirões de quem tom ar algum , O Momento na m ão, a satisfação sobrando dos olhos e da boca. Morde o freguês nos cobres para a viagem do Nosso, vende-lhe o bilhete, em bolsa o subsídio, dá-lhe de brinde o exem plar da revista, volta à banca de Ibrahim , retirado bolso a pequena m oeda, com ela bate no balcão, anuncia:
— Vou m andar 500 réis à m erda, vou com prar O Momento.
Em punha a revista, retorna à rua Chile.
Bahia, 1963.
O jardim
Anna Seghers sentada em baixo do sapotizeiro, no j ardim . João Jorge trouxe a m esa de arm ar, m esa de j ogo, Palom a a cadeira de m etteur-en-scène de cinem a, Anna escreve contos cuj a ação se desenrola na Alem anha — viveu na França, no México, viaj ou o m undo do exílio, a saga espantosa está contada em Transit, m as seu tem a e sua hum anidade são alem ães. Nasceu para ser fiel, era exata por m ais parecesse ser estouvada, habitante do m undo da lua — por que penso na lua ao pensar em Anna? Pela beleza de certo, não conheci m ulher m ais bela, não conheci ser m ais adorável, m inha irm ãzinha Anna, quando m orreu m e senti sozinho, dim inuído, faltava-m e um a parte do coração. No j ardim Anna escreve, m estre m aior do conto e do rom ance com o quem m ais o sej a, o com prom isso cum prido até o fim não lhe lim itou a grandeza criadora. Na recente caça às bruxas, no aj uste de contas, há quem busque negá-la, esm aecer a luz que ela acendeu em seu percurso de escritora, da Sétima Cruz ao conto do j uiz íntegro, testam ento literário e político, lido em May ence, cidade natal de Anna, nas com em orações de seus noventa anos. As fogueiras do preconceito term inarão por se apagar, a visita da Santa Inquisição se encerrará, a criação de Anna Seghers perm anecerá no ápice da literatura alem ã, im possível escam oteá-la, as trevas da noite não conseguem im pedir a afirm ação do dia.
Nasceu Netty Reiling, o pai era antiquário, em 1928 publicou seu prim eiro livro e aderiu ao Partido Com unista, passou a ser Anna Seghers, escritora e m ilitante. Na m anhã do j ardim , tom a do lápis, escreve, o sol da Bahia em seus cabelos brancos. O m arido, professor Schm idt — Rudolph Radvany i —, foi ditar conferências em Recife, a convite de Paulo Cavalcanti* — um a neta de Paulo um dia habitará Berlim leste, estudando a obra de Anna. Professor Schm idt não se contenta em ser sério, é solene, o oposto de Anna, catedrático de m aterialism o dialético na Universidade Marx-Engels-Lenine, m arxista integral zela pela pureza da doutrina, ideólogo construído em aço. No entanto dão-se bem : Anna, o pássaro canoro, a ave solta no céu, a ternura, a decência, a alegria de viver, e o irredutível teórico, o guardião da doutrina — com o se sabe e se diz, o am or não conhece barreiras, supera qualquer fronteira, vence qualquer distância.