Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1971.
A agnóstica
Após o casam ento de Palom a, no autom óvel — vam os da igrej a dos beneditinos para o alm oço em casa de Ody lo, em Santa Teresa —, Lalu*, toda nos trinques, reclam a do serm ão de dom Tim óteo Am oroso, a seu ver discrim inatório em relação à neta:
*Lalu, apelido de Eulália Leal Amado, mãe de J. A.
— Toda hora atirava na cara da m enina que ela não é católica, que não foi batizada...
— Casam ento ecum ênico, m inha m ãe, de um católico com um a não-católica... Dom Tim óteo não estava ofendendo Palom a...
— Nem por se tratar desses m odernism os, o frade não precisava contar que Palom a não é católica, botar na boca do m undo... A pobrezinha ali, ouvindo... Tam bém tu e Zélia que necessidade tinham de espalhar que ela não é católica?
E Lalu, seria ela católica? Batizada, com certeza, m as de religião fraca. Tirante as prom essas a Santo Antônio, o das coisas desaparecidas e achadas, a quem ela tratava de Tonho, com intim idade, não lhe sobrava crença para a sobrem esa. Céptica e crítica, não acreditava na vida eterna, gostava dessa que se vive na terra, m esm o lim itada e vã. Sou bem seu filho.
Londres, 1970.
Chaplin
De partida para a Europa vou m e despedir de Walter da Silveira*, despedir é o verbo correto: Walter está desenganado. Leal e exigente, o am igo m ais cium ento de quantos tive em m inha vida, indignava-se com supostas desatenções, cobrava. Ao ouvir-lhe a voz no telefone, eu com eçava Por lhe perguntar: m e diga, Walter, estam os de bem ou de m al? Do outro lado do fio ele desatava na risada, perdoava-m e a desatenção, só ele sabia qual e quando.
*Walter da Silveira (1913/1970), advogado e crítico de cinema.
Encontro-o contente apesar da enferm idade: recém -publicado, seu ensaio sobre Charles Chaplin recolhe louvores, Glauber gostou, Paulo Gil Soares, no Rio, Fernando da Rocha Perez, na Bahia, desdobram -se em elogios, Walter exibe-m e recortes. Pede-m e o favor de levar um exem plar com dedicatória para Chaplin, deverei postá-lo na Europa: quer ter certeza de que ele o receberá. Tem e que não lhe chegue às m ãos o que despachou do Brasil por via aérea e sob registro. Recebo o volum e, aceito a incum bência, fique descansado, porei no correio em Londres, m inha prim eira escala.
Ao fazê-lo, j unto ao livro carta que Antônio Olinto traduz para o inglês e eu assino, relem bro a Chaplin o Prêm io Mundial da Paz que ele aceitou e recebeu em sua casa na Suíça, falo de Walter, digo quem é, o quanto lhe deve o cinem a brasileiro, o am or que dedica à obra do gênio que criou a figura de Carlitos, peço que acuse o recebim ento para o endereço do autor do ensaio, na Bahia, acrescento que Walter está m orrendo.