Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 126 de 262

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Rio de Janeiro, 1947.

*Giuseppe De Santis, cineasta italiano.

Poucos rom ances contem porâneos tocaram -m e de form a tão profunda quanto Crônica di poveri amanti, quando o li, em 1948, história de am or no quadro de Florença, grande e j usto sucesso que situou Pratolini na prim eira fila da literatura italiana. Riso amaro film e de De Santis deslum brou-m e nos últim os anos da década de quarenta com seu hum anism o popular, sua graça picaresca.

O vinho, os queij os, a pasta feita na hora, três am igos, três sobreviventes, quarenta anos depois. Não nos ligam apenas a literatura e o cinem a, a arte, liga-nos a vida que um dia vivem os, acontecim entos que testem unham os, m ovim entos de que participam os, testem unhas e protagonistas.

Um fato, Guttuso na tribuna do Congresso dos Intelectuais pela Paz, em Wroclaw, na Polônia; um detalhe, um nom e recordado, Alberto Cavalcanti film ando em Viena; um grito de cólera, ai Lukács condenado em Budapeste, um olhar de ternura, um gesto de am izade, a solidariedade inteira e incontida, te lem bras? Passam os a noite a nos lem brar, pela m adrugada concluím os que, apesar de tudo, valeu a pena.

Rio de Janeiro, 1947.

O signatário

Certa tarde, em m arço ou abril de 1947, não garanto pela precisão da data, Villa-Lobos* apareceu na Com issão de Educação e Cultura da Câm ara Federal, da qual eu fazia parte, representante da bancada com unista, e onde gozava de certo prestígio, pois trabalhava duro.

*Heitor Villa-Lobos (1887/1959).

O grande com positor brasileiro, um dos brasileiros m aiores, se em penhava na divulgação do canto orfeônico nas escolas m unicipais do Rio de Janeiro, se entregava, num trabalho apaixonado, à organização e m anutenção de não sei quantos corais de crianças e j ovens, adm irável cruzada pela educação m usical, que nem sem pre obtinha das autoridades o apoio necessário — que proj eto cultural realm ente válido m erece apoio das autoridades no Brasil? Villa-Lobos veio à Câm ara dos Deputados, à Com issão de Educação e Cultura, em busca de verbas.

O autor das Bachianas Brasileiras, m undialm ente fam oso, possuía alguns hobbies conhecidos, o charuto, o j ogo de bilhar, a m entira: gozava fam a de grande m entiroso. Recordo ter ouvido de Erico Veríssim o engraçadíssim a história de um a conferência pronunciada por Villa-Lobos, se não m e engano em Washington, proferida em português. Adm irador do com positor, encontrava-se Erico entre o público quando soube que surgira um problem a: a pessoa que devia assegurar a tradução da conferência não com parecera, o tem po passava, os ouvintes im pacientes. Os responsáveis solicitaram a aj uda de Erico, que assim se viu na tribuna, ao lado do conferencista, a traduzir o que ele contava, histórias incríveis, absurdas, segundo o rom ancista de O Tempo e o Vento:

— Dizia coisas espantosas com a m aior naturalidade do m undo, nunca vi ninguém m entir tanto. Com eçou por declarar que tinha nascido na selva, num a tribo de índios guerreiros... A partir daí não parou m ais.