Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 163 de 262

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Bahia 1967.

— Sexta-feira? — Tam bém eu faço as contas nos dedos: — Daqui a cinco dias? Não pode ser, Zuca.

— O Professor quer antes? Então planto na quinta...

— Quinta? Muito tarde, Zuca.

— Muito tarde? — Adm ira-se, m as se conform a: — Então na quarta..

— Antes da quarta, Zuca.

— O Professor está com pressa, não é? Planto am anhã...

— Am anhã não, Zuca. Hoj e, agora.

Zuca olha-m e com estim a e com iseração, atropelo o tem po e a vida:

— O Professor é interessante. Tem cada um a...

Violentado, m as não convencido, vai plantar as pitangueiras, cresceram lindas, j am ais deram pitangas. Peço explicações a Zuca, com a voz calm a e cantada m e esclarece: machearam, Professor, acontece muito:

— Tam bém , plantadas naquela correria...

Bahia 1967.

Os clássicos

Na livraria de Dem ê pago contas elevadas, repetidas, livros às m ãos-cheias com prados por João Jorge — ponha na conta de m eu pai —, toda um a biblioteca de m arxism o-leninism o.

O retrato de Che Guevara, foto de Korda, a m ais reproduzida em todo o m undo, preside o quarto de João na casa do Rio Verm elho, as prateleiras ocupadas pelos m estres do m aterialism o dialético, pelos ideólogos do com unism o soviético, Marx e Engels Lenine, Bukarin, Stalin, os porretas todos, não falta nenhum . Duas edições de O capital, um a espécie de resum o em português, outra com pleta, encadernada, soberba, em espanhol. Num erosos volum es em espanhol, Dem ê os im porta por vias travessas, custam os olhos da cara. Um volum e em francês, Le Fils du Peuple com dedicatória de Maurice Thorez* para le camarade brésilien J. Amado, surrupiado de m eu acervo.

*Maurice Thorez (1900/1964), secretário-geral do pecê francês.

As edições nacionais, quase todas, trazem o selo da Civilização Brasileira, a editora de Ênio Silveira, am igo e com panheiro. Ênio carrega nas costas vários processos, habitue das com issões m ilitares de inquérito, não se em enda, corre novos riscos, cam arada de coragem com provada: continua a editar autores proibidos, presta serviço à causa, afirm a liderança entre a inteligentzia, ganha dinheiro.

Exam ino a estante pej ada de ideologia. Constato — com certa satisfação, confesso — que m eu filho não leu um a linha sequer dos clássicos da revolução proletária, os tom os estão virgens com o saíram dos prelos de Ênio. Nisso João Jorge im ita os dirigentes do pecê: não lê os clássicos do m arxism o, os m estres do leninism o, pergunto-m e quem os lê, m uito vendidos, pouco lidos — com o sucede hoj e em dia com rom ancistas em voga, nacionais e estrangeiros.

Dirigente estudantil em luta contra os gorilas no poder, j ovem com una sectário porém bem -hum orado, João Jorge escreve peças infantis, colabora no teatro de arena, com anda passeatas, nam ora à farta, nas horas vagas (raras) frequenta o curso de sociologia na Faculdade de Filosofia e, se não lê os clássicos, lê rom ancistas e poetas. Os livros de ler estão espalhados pelo quarto, não m erecem as honras da estante, largados em cim a das cadeiras, ao pé da cam a, ao lado da latrina. Exam ino autores e brochuras, as leituras do adolescente: Dum as, Castro Alves, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Steinbeck, Aluísio de Azevedo, Lolita, de Nabokov, A mãe, de Máxim o Gorki — afinal um soviético. Quero saber: entre eles, qual o preferido? João Jorge não vacila: gosto de Eça de Queiroz, ele é o tal. Aprovo m as continuo a interrogar: que livro de Eça? A ilustre casa de Ramires? Os Maias? João Jorge aprecia Os Maias, acha João da Ega o m áxim o, não leu A ilustre casa, m as o Eça que prefere é o de A relíquia. Aconselho-o a ler Dickens e Mark Twain. Diz-m e que de Twain j á leu Tom Sawyer e Huck, eu lhe proponho os contos, vou ao gabinete buscar Mister Pickwick.