Navegação de Cabotagem
Bahia, 1985.
— As galinhas? — perguntei.
— Suj aram o quarto todo, subiram na cam a, cagaram tudo. Por pouco não caí na gargalhada, m e segurei. Zé Guilherm e queria conselho, com o se livrar das aves. Assum i ar grave, preocupado. De nenhum a m aneira podes devolver o presente, seria ofender o poder socialista, os cam poneses da Polônia. Vam os buscar um a solução conveniente. Para com eço de conversa José Guilherm e redigiu carta ao presidente do sindicato dos criadores de galinhas agradecendo a generosidade em nom e dos cam poneses brasileiros, Gruda a guardou, ia traduzi-la em casa, a tradução acom panharia o original em português. Estudam os longam ente o que fazer com as penosas, a vodca aj udava. Vendo o am igo num beco sem saída, o tradutor, em prova de am izade, aceitou guardar as aves, por aquela noite, no pequeno quarto onde m orava, levou-as consigo num táxi, após tê-las caçado no apartam ento de Zé Guilherm e e lhes atado os pés e as asas, sabia coisas. Partiu feliz da vida, Zé Guilherm e deu-lhe com que pagar a corrida e dar gorj eta ao chofer que resm ungara ao ver a bagagem galinácea. Ao despedir-se, Gruda prom eteu enviar a carta logo pela m anhã, sem falta. Quanto a Zé Guilherm e, eu o aj udei a retirar os lençóis da cam a suj os de cocô de galinha, fediam . Quis em prestar-lhe um dos m eus, recusou, a colcha de lã, grossa, por sorte estava lim pa, nela se enrolou.
No outro dia lhe contei a verdade, pois sofria horrores ao Pensar que o quisessem obrigar a levar as galinhas e o galo para Brasil, carga insólita. De tão aliviado que ficou não se zangou, ainda forneceu uns cobres a Eugenius Gruda destinados à com pra tem peros para o escaldado de galinha. Cozinheiro de m ão cheia, Eugenius Gruda se queixou: galo mais velho nunca vi, carne mais dura que sola de sapato.
Bahia, 1985.
Os cabrões
Alm oço em residência de Auta Rosa e Calá em hom enagem a dois baianos honorários, hospedam -se na Casa Real de Itapuã quando em visita à pátria de adoção: Francês Switt* e padre Michel Schooy ans*. Convidados em grande núm ero, com ida farta e de prim eira — o sarapatel de Aíla só se com para ao da m ãe de Dm eval Chaves, santa, ao falecer levou a receita para o reino de Deus —, bebida variada, uísque, conhaque, as batidas celebradas da dona da casa, do Liebfraum ilch alsaciano ao gaúcho Capelinha os vinhos do gosto dos anfitriões, água-de-coco para m atar m inha sede, regalia de am igo.
* Frances Switt, diplomata norte-americana.
** Michel Schooyans, sacerdote belga, professor universitário.
Francês ocupa quarto no prim eiro andar, padre Michel, estudioso das festas populares do fim e do com eço do ano, das novenas da Conceição da Praia à procissão da Lavagem do Bonfim , repousa no quarto do andar de baixo, tem entrada independente. Observo o padre e a diplom ata em prosa e riso, interpelo Auta Rosa para debochar:
— É ele quem sobe ao quarto dela ou é ela quem desce ao quarto dele?
Auta quase se ofende, responde rebarbativa: