Navegação de Cabotagem
Bahia, 1978.
Sentado em frente à bela, ausente da conversa que rola em francês e ele não fala nenhum a língua ocidental, fala dezoito do oriente, adem ais m andara Liu, seu intérprete, esperar na ante-sala, Kuo-Mo-Jo dedica-se a fitar o decote do vestido de gala de Valentina, os olhos presos aos seios fornidos, deslum brantes m ananciais. Cego para tudo o m ais, esvaziava por boa educação o cálice de vodca colocado em sua frente. Para livrar-se, bebia-o de um trago, Lluba*, dona-de-casa atenta, voltava a enchê-lo, ele a em borcá-lo.
*Lluba, mulher de Ilya Eremburg.
Na China, é bom que se repita, os seios das m ulheres, zona erógena por excelência, são o que existe de m ais sagrado, sem pre escondidos, desde cedo suj eitos à pressão das faixas de panos que os im pedem de crescer, seios pequenos das chinesas, ocultos, tabu absoluto. Seios m onum entais de Valentina, praticam ente à m ostra, os olhos do preclaro dirigente, do insigne hom em de estado, plantados, fixos, nas m am as voluptuosas.
Distantes do dram a, nós discutíam os literatura, arte, cinem a, acalorados, só nos dem os conta da catástrofe — será a palavra exata? — quando o absurdo aconteceu: Kuo-Mo-Jo, na aparência inteiro, apesar de toda a vodca que consum ira, o rosto im passível, sem tirar os olhos das tetas russas, ubérrim as, teatrais, levantou-se, deu a volta à m esa, parou diante da senhora Sim onov, adiantou as duas m ãos e com elas tom ou-lhe dos seios, nelas os prendeu, dava a im pressão que para sem pre.
Ali, diante de nós, estarrecidos, Kuo-Mo-Jo, vice-presidente m últiplo, com unista histórico, o m aior sábio da Ásia, em inência, as duas m ãos no decote do vestido de Valentina Ferova Sim onov, um a no seio direito, outra no esquerdo, a segurar, no rosto im óvel estam pada a felicidade suprem a. Im obilidade assim total, nós, Paralisados, sem fala, silêncio igual nunca se vira desde o com eço do m undo, não se voltará a ver. Olhávam os em basbacados, em udecidos, estátuas de pedra.
Liu, que não perdia seu chefe de vista, veio da saleta e o tom ou pelos cotovelos, com firm e delicadeza o afastou e o conduziu para o elevador. Ily a e Lluba, restituídos à vida, foram despedi-lo. Na sala a discussão, literatura, arte, cinem a, recom eçou onde se interrom pera, se perdera o interesse, ninguém deixava ver: era com o se o acontecido não tivesse havido. Desde essa noite de espanto passei a devotar ainda m aior estim a a Kuo-Mo-Jo.
Bahia, 1978.
Dólares à mão cheia
Luiz Carlos Barreto, pai e m ãe do atual cinem a brasileiro, telefona-m e do Rio, virá à Bahia para tratar de importante assunto de nosso mútuo interesse, m arca encontro. Sou am igo de Luiz Carlos de m uito antigam ente, de seus tem pos de repórter fotográfico — excelente fotógrafo — em O Cruzeiro, gosto da fam ília toda, de Lucy, de Bruno, de Fábio, de Paula, do craque Cláudio Adão* e de dona Lucíola, rainha-m ãe, poderosa. Luiz Carlos produziu o film e adaptado de Dona Flor e seus Dois Maridos dirigido por Bruno, sucesso m undial.
*Cláudio Adão, jogador de futebol.
Chega no início da tarde, abanca-se, tira o paletó, atira-m e a proposta que ele considera irrecusável, j am ais se viu coisa sem elhante no cinem a nacional, cairei de costas, em delírio de grandeza assinarei: