Navegação de Cabotagem
Praga, 1952.
O bravo soldado
Respondo carta de Miécio Tati, quer saber se Kafka é o espelho do povo tcheco, sua face, seu coração. Para Miécio a literatura é coisa viva, não apenas papel im presso, perdura além das páginas dos livros, os personagens andam nas ruas. Encontro nas ruas de Praga os personagens de Kafka?
Creio que os personagens de Kafka, nós os encontram os em todos os cam inhos do m undo, em todos os becos da angústia, não im porta se são tchecos, alem ães, j udeus, poderiam ser brasileiros, não é a nação que os m arca e, sim , o dram a, são um a casta e não um a pátria. Se queres saber dos tchecos, quem são e com o são, eu te recom endo ler Jaroslav Hasek*, seu livro sobre as aventuras do bravo soldado Chveik, ali, sim , está a nação. O sargento patriota que se inscreve soldado para fazer a guerra, ingênuo de aparência, é em verdade a recriação do povo tcheco, m estre da astúcia e da generosidade, intrépido e m anhoso, sério m as não severo, risonho porém j am ais estrepitoso. Figura im ortal, o soldado Chveik: poucas vezes um rom ancista encarnou com tal graça e tam anha perspicácia a im agem de seu povo num personagem , Hasek é o espelho da Boêm ia e da Morávia. Consigo um exem plar da edição francesa da história do bravo soldado e o rem eto a Miécio.
*Jaroslav Hasek (1883/1923), escritor tcheco.
Se há quem ainda não tenha lido a saga de Chveik, Dom Quixote contem porâneo, aconselho a que o faça o quanto antes, estou certo de que m e agradecerá pelo alvitre. Com plete a paixão por Hasek lendo, se tiver a sorte de o encontrar à venda, a curta ficção que ele escreveu contando suas aventuras de com issário político do Exército Verm elho nos idos de 1919, nos com eços heróicos e rom ânticos da revolução soviética: a sátira e a solidariedade. Quando o li j á Miécio tinha m orrido, foi-se m oço dessa vida, j á não pude lhe enviar exem plar, ele devorara Le brave soldat Chveik: espelho do povo, m e escrevera agradecendo.
Bahia, 1963.
A missa
Dom Clem ente* vem em visita de pêsam es, abraça Lalu, apresenta-lhe as condolências pela m orte do Coronel.
*Dom Clemente da Silva Nigra (1903/ 1987), monge beneditino, diretor do Museu de Arte Sacra da Bahia.
Veste calça e paletó, cam isa aberta no peito, im pecável, penteado, perfum ado, um alm ofadinha, desfila pela casa, vai de obj eto em obj eto, com enta as peças da coleção de arte popular, gestos adam ados. Dom Clem ente é notabilidade, m useólogo em inente, m ontou e dirige o Museu de Arte Sacra, bem da cidade, m enina dos olhos de Edgar Santos, seu renom e corre m undo. O dom Maxim íliano de O Sumiço da Santa tem algum as coisas dele: a erudição, a com petência, os adem anes. Lalu segue a visita com olhos de suspeita: será por acaso avinhais? Por avinhais ela designa os hom ossexuais, vá-se lá saber por quê, dona Angelina diz m ariquinhas, as duas m atriarcas da casa possuem vocabulário próprio.
— Quem é este senhor? É m ais um pintor? — Pintor para Lalu é sinônim o de vagabundo, boa-vida.