Navegação de Cabotagem
Cascais, 1991.
Seguiu-se telefonem a de Cary bé, falou disso e daquilo, term inou por perguntar se não tínham os — Zélia, eu ou dona Eunice — atendido à porta e lá encontrado um obj eto. Obj eto? Na porta? Lá não tínham os ido, se a cam painha soara não a ouvíram os, talvez ainda estej a lá, vou ver, Cary bé ficou à espera ao telefone. Fui, voltei: na porta não tem nada, com padre, o que aprontaste desta vez? Afobou-se e term inou por confessar que deixara na porta a Nossa Senhora de Frei Agostinho da Piedade, simples pagodeira, é claro. Fiz-m e de alarm ado: perdeste o j uízo, com padre? Largar peça de tam anho valor fora da porta, dando sopa, nos tem pos que vivem os, de furtos e assaltos? Em m im Cary bé não confia, m as confia em Zélia e quando a com adre confirm ou nada term os encontrado, Cary bé perdeu o rebolado.
Não tardou a aparecer, vasculhou a casa sem encontrar a santa que eu escondera no arm ário de Lalu, nem Lalu sabia. No entrem eio eu telefonara a Mirabeau para acalm á-lo — aflito, queria cham ar a polícia —, tam bém ele veio nos visitar, j untos acom panham os o desespero de Cary bé, penou as penas do inferno, até que Zélia, não suportando ver tanto padecim ento do com padre, deu o serviço.
Nessas duas vezes eu ganhei, nas dem ais, tantas e tantas, ganhou ele, o senhor Hector Júlio Paride de Bernabó, todo esse nom e e em busteiro.
Cascais, 1991.
Vamos acabar com ele
No correio reenviado de Paris, carta de Otto Lara Resende, deixo as dem ais de lado, dou-lhe a m erecida prim azia. O guru com enta a tem pestade que desabou sobre a cabeça de Fernando Sabino, m otivada pela publicação de seu recente Zélia, uma paixão, biografia rom anceada, a vida e os am ores da Ministra da Econom ia, Zélia Cardoso de Melo, ainda tão j ovem e j á tão falada, o nom e na boca do m undo.
Hum or e indignação ottorresendianos nos com entários sobre a traumática experiência de Fernando. Os ataques, as acusações ao livro pelos patrões da crítica literária, de repente guardiões da m oral pequeno-burguesa, da hipocrisia da sociedade, e por líderes fem inistas em crise de histeria, desatados uns e outras em fúria e pudicícia nas revistas e j ornais cariocas e paulistas. Uma boa parte — constata Otto — deve ter sido ditada pela inveja e sentimentos menores. Você sabe, melhor que ninguém, que entre nós escritores ou artistas não podem fazer sucesso e sobretudo ganhar dinheiro para sobreviver. Tem de passar fome na sarjeta e morrer logo, não mais tuberculoso, mas de Aids.