Navegação de Cabotagem
Bahia, 1962.
Nós o conhecem os, a ele e a Sim one Signoret, em 1948, na França, nos anos de exílio, de euforia com unista, tem po de certezas as dúvidas não haviam ainda com eçado. Jean Cassou nos apresentou em casa de André Wurm ser, nas j ornadas da paz fiz-m e am igo de Sim one. Transcorridos m uitos anos, ela presidiu o j antar, prom ovido por Jean-Claude Lattès, com que a editora Hachette com em orou m eus setenta anos, reunindo am igos franceses antigos e recentes.
Mais de quarenta anos são passados, ainda hoj e trago com igo a em oção que m e dom inou quando, no Théâtre du Chatelet, interrom pendo o canto — o concerto intitulava-se Chansons Populaires de France —, Yves Montand disse o poem a Barbara, de Jacques Prévert, um calor de labareda m e envolveu e acalentou.
Em 1983, a pedido de Madeleine Archer, responsável pelos prêm ios Molière, escrevi um a carta a Yves Montand insistindo para que viesse ao Brasil, sua presença nos aj udaria a varrer a ditadura m oribunda. Yves veio e com ele vieram a filha de Sim one, Catherine Alegret, e Jorge Sem prun, o rom ancista espanhol m abaça de Montand. Ovacionado no Teatro Municipal, quando se pensava que os aplausos iam term inar eles redobravam , não tinham fim , o troubadour pôde dar-se conta da significação de sua presença na festa dos artistas cariocas.
Restou por explicar o problem a da definição, um prestidigitador: pareceu-m e perfeita até onde pode ser perfeita a tentativa de definir-se aquele que prossegue sendo para nós, seus com patriotas e devotos, esfinge indecifrável. Vim a saber que houve um segundo encontro, o que conversaram não foi revelado, m as de volta a Paris o troubadour se referiu, segundo m e contaram , ao caráter aliciador do personagem e à aura de m istério a revesti-lo. Quando o revi, m e perguntou: et lui, comment ça va? Não falou o nom e, não era necessário.
Cest um prestidigitateur!, acertara em cheio. Quando da pergunta feita na recepção, provocado em m eus brios, contei do saber e da m alícia, da sutileza, do im previsto, da obscura evidência, da contraditória exatidão do guru m ineiro. Yves Montand ouviu-m e em silêncio com o se tudo aquilo para ele não fosse novidade, com o se houvesse entendido o abstruso num a única conversa e soubesse O Lara Resende de cor e salteado, enquanto para nós do terceiro m undo a incógnita persiste, pois Hélio Pellegrino* levou consigo a chave adivinha, quando em barcou para a viagem , aquela que sabeis.
*Hélio Pellegrino, psicanalista.
Bahia, 1962.
Os escultores
Agnaldo* m orreu m enino aos trinta e seis anos, vítim a da doença de Chagas, um charlatão dublê de tira de polícia aplicou-lhe inj eção m ilagrosa, tiro e queda na cura da enferm idade tida por incurável. Com ele se enterrou a m ais excepcional vocação de escultor j á revelada no Brasil.
*Agnaldo dos Santos (1926/ 1962).
Moleque de Itaparica, com eçou criança a ganhar a vida, na Ilha exerceu o ofício de caieiro, antes de vir para a capital. Na Bahia foi trabalhar no atelier de Mário Cravo, cortava e preparava m adeira para as peças do escultor: a fase das esculturas em m adeira parece-m e fundam ental na obra de Mário, basta citar o Antônio Conselheiro que Pietro Bardi com prou e ofereceu ao Museu de Arte Moderna da Bahia, a Tentação de Santo Antônio que se encontra na Secretaria de Planej am ento, no Centro Adm inistrativo, a Yemanjá que sobrevoa a sala de j antar da casa do Rio Verm elho, o Cangaceiro que eu fui visitar em clube de Vitória, o Capoeirista que dom ina o hall de um hotel em Brasília. 0 tem po destruiu peças igualm ente im portantes quando Mário se voltou para outros m ateriais, o ferro, o aço, a pedra-sabão, a fibra de vidro e se desinteressou pelas peças cortadas na m adeira.
Labutava Agnaldo a desbastar m adeira para o m estre, Mário o viu talhando pedaços de pau, nada disse, apenas ficou de olho nos exercícios do negro alto, forte e bonito, operário com petente, quem sabe m ais que isso. Não se passou m uito tem po, num sábado, ao efetuar o pagam ento da sem ana, Mário lhe inform ou:
— Agnaldo, você está despedido.
— Despedido? O que foi que fiz? — Agnaldo não entendia a razão do desem prego.
Não fez nada de mal, você está despedido do trabalho mas venha todos os sábados receber o salário da semana. Agnaldo continuava sem entender, entendia cada vez m enos. Mário riu seu riso debochado e generoso:
— Se você continuar aqui, brincando com m adeira, nunca vai passar de um sub-Mário Cravo, nunca vai chegar a Agnaldo. Vá pra casa, m eta a cara, quando vier aos sábados receber a grana traga o que fez pra m e m ostrar.
Já escrevi que com padre Mário é um a força da natureza por capricho dos deuses desencadeada na Bahia, ferreiro de Exu saído dos infernos, bigodes arrogantes, devassos, a boca de gargalhada um dos pais da arte m oderna da Bahia. A arte m oderna da Bahia com eçou com ele, com Genaro de Carvalho e Carlos Bastos, a esses prim eiros se j untaram Cary bé, Rubem Valentim , Mirabeau, Jenner Augusto, Hansen Bahia. Mário foi o m estre principal da geração que se seguiu à prim eira leva revolucionária, influiu sobre j ovens plenos de talento e de vocação: Calasans, Lew, Antônio Rebouças, Fernando Coelho, Tati Moreno, Jorge Costa Pinto. Sem falar que forj ou Cravo Neto na cam a de Lúcia, santa Lúcia. Filho de sangue, Mariozinho, m as os artistas baianos quase todos nasceram em seu atelier, de seus ensinam entos. Mário foi fundam ental e definitivo.
Escultor único em sua singularidade, prim eiro sem segundo, Agnaldo não se assem elhou a nenhum outro. Possuo na casa do Rio Verm elho a Virgem com a coroa de pregos, tem a face negra, o corpo de baiana, Madona m ulata, brasileira. O Oxóssi está no apartam ento do Rio, veio da África no navio negreiro, na selva do Brasil Agnaldo o recriou j agunço, herói do cangaço, vaqueiro do sertão, orixá m ulato no bando de Lam pião. Mestiços a m adona e o orixá, África e Europa, não m ais a África, não m ais a Europa, o Brasil. Representante da cultura m estiça brasileira, conquistou o Grande Prêm io Internacional de Escultura no Festival de Arte Negra, em Dakar.
Nos com eços da vida artística, ainda sem fam a e sem fregueses, Agnaldo talhou carrancas e as vendeu com o se as tivesse obtido no rio São Francisco, trabalho de anônim os, são as m ais belas carrancas que existem , Cary bé possui um a delas, anim al fantasm agórico, dragão, um a das coisas, tantas, que ele tem e eu invej o.
Vej o Agnaldo nos dias finais, tom ado pelo m al de Chagas, custava-lhe talhar o orixá no tronco de árvore. Levados por m im a seu atelier, dois com padres m eus, pernam bucanos, Paulo Loureiro e Ruy Antunes, com praram as últim as peças que realizou. As dem ais tinham ido para o m archand que contratara por dez réis furados sua produção e o explorou durante a vida inteira.