Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 176 de 262

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Rio de Janeiro, 1956/58.

Mike conseguira enfim libertar-se das tarefas diárias do Partido, viera escrever em Paris o segundo rom ance, Chomeur sobre o tem a do craque financeiro de 1929. Anunciado vinte e cinco anos antes, o escritor não conseguira tem po para realizá-lo, m ilitava. Agora, sim , livre em Paris, dedicava-se à escrita do rom ance: obrigação única, tarefa exclusiva. Nos fins de tarde, no Boul'Mich', sentados à m esa do café, Mike, cada vez m ais abatido, desanim ava:

— Perdi a m ão, j á não sei escrever rom ance, levei dem asiado tem po sem fazê-lo, perdi a m ão.

Morreu sem ter escrito Chomeur, gastou a vocação e a vida em m íseras tarefas de m ilitante, artigos, reuniões, crítica e autocrítica, tanta tolice, perdeu a m ão.

Nenhum de meus detratores, esses tantos que não perdem vaza para dizer mal de mim, sabichões cuja missão crítica é negar qualquer valor a meus livros, nenhum deles conhece tão bem minhas limitações de escritor quanto eu próprio, delas tenho plena consciência, não permito que me iludam os ouropéis e os confetes.

Sei também, de ciência certa, existir nas páginas que escrevi, nas criaturas que criei, algo imperecível: o sopro de vida do povo brasileiro. Não carrego vaidade, presunção, e sim, orgulho.

Rio de Janeiro, 1956/58.

Paratodos

O Paratodos, quinzenário de cultura, datado do Rio e de São Paulo, durou de abril de 1956 a setem bro de 1958, a ele dediquei todo m eu tem po durante dois anos e m eio, tirante um a viagem ao Oriente, em 1957, e a escrita de Gabriela, Cravo e Canela. Tarefa árdua, bastante divertida.

Fundado por um grupo de intelectuais, provindos em sua m aioria das hostes do pecê — uns quantos se haviam afastado, deixando de m ilitar, era o m eu caso, o de Jam es, outros perseguiam inscritos, m as se aproveitavam da abertura determ inada pelo XX Congresso para assum ir posições dem ocráticas —, o Paratodos exerceu papel de relevo na vida intelectual, influiu, agitou, m arcou época.

A equipe com cargos de direção na em presa e no j ornal era constituída por Oscar Niem ey er, Moacy r Werneck de Castro, Jam es Am ado, Alberto Passos Guim arães e por m im próprio. Entre os redatores e responsáveis por setores e sessões, estavam Dalcídio Jurandir, Dias da Costa e Renard Perez (literatura), Vera Torm enta, Anna Letícia e Mark Berkowitz (artes plásticas), Alex Viany (cinem a), Antônio Bulhões (teatro), a sucursal de São Paulo era assegurada por José Geraldo Vieira. Entre os principais colaboradores vale citar os nom es de Joaquim Cardozo — grande poeta, notável crítico de arte, escreveu do prim eiro ao últim o núm ero —, Álvaro Morey ra, Barão de Itararé*, Vinícius de Moraes, Miécio Tati, Paulo Mendes Cam pos, Maria de Lourdes Teixeira, Ruggero Jacobi, Moacy r Félix, Antônio Olinto, Ary de Andrade, Enio Silveira, Roberto Alvim Correia. Im portante núcleo de artistas assessorava a redação: Oswaldo Goeldi, Carlos Scliar, Iberê Cam argo, Fay ga Ostrower, Darei. O ilustrador era Otávio Araúj o. Cito apenas alguns nom es, é longa a lista daqueles que colaboraram , de um a m aneira ou de outra, com o Paratodos, em com pensação m inha m em ória é fraca, devo estar esquecendo gente im portantíssim a.