Navegação de Cabotagem
Fazenda Santa Eulália, Pirangi, 1924.
O velho ri sob os bigodes brancos:
— Todos m eus, João Am ado. — Am plia o sorriso, nos olhos a m alícia e a ternura: — Meu filho Antônio m e aj uda um pouco...
A tarde cai, am ena, lum inosa, a doce viração do pôr-do-sol nos acom panha rua afora na cidade de Buquim .
Em tão longa e difícil travessia quem não se fere e não se suja?
Fazenda Santa Eulália, Pirangi, 1924.
A égua
Minha prim eira vez foi na fazenda, com a égua Furta-Cor, m ontaria nervosa e elegante, espantadiça, passarinheira. Menino solto nas roças de cacau, inúm eras vezes assisti à cópula dos alugados com éguas, m ulas e j um entas. Furta-Cor era viciada: um a palm ada nas ancas, am ava os quartos, punha-se em posição.
Am ores no pasto sob a lua, de Furta-Cor sofri ciúm es, não m e era fiel, traía-m e com trabalhadores e j agunços, o negro Honório, o curiboca Argem iro, o sarará Dioclécio, com toda a m olecada da fazenda, não tinha preconceitos de raça e classe: tarada, gostava de hom ens.
Tomo da mão de minha namorada, cúmplice da aventura há quase meio século, co-piloto na navegação de cabotagem: vamos sair de férias, mulher, bem as merecemos após tanto dia e noite de trabalho na escrita e na invenção, nossas primeiras férias em tantos anos. Vamos de passeio, sem obrigações, sem compromissos, vamos vagabundear sem montra de relógio, sem roteiro, anônimos viandantes, convidaremos Misette a vir conosco, é boa companhia para a descontração e o riso, daremos uma de turistas para escândalo dos letrados.
Não me digas que se acerca a hora das comemorações, não me tentam, não vejo por que o estardalhaço dos oitenta anos, quero sossego e paz, a carga dos mortos que carregamos no cangote pesa e cansa, nossos mortos, homens e bichos, não faço distinção. Por que comemorar oitenta anos? — Não repitas que são oitenta primaveras, ai são invernos, as palavras não curam o reumatismo. Vamos desencomendar o foguetório, guardar o fogo de artifício, a missa campal das ursulinas, a festa do axé no terreiro do Afonjá, vamos tudo guardar para daqui a três anos, três, exatos, para o nosso aniversário. Foi em julho de mil novecentos e quarenta e cinco que nosso enlace aconteceu, lembro cada gesto, ouço cada palavra, os suspiros, os ais de amor. Vínhamos de uma festa política, éramos cidadãos cumprindo o dever da cidadania, combatentes, aconteceu na aurora da liberdade, embarcaste na barra da manhã, no cais da Avenida São João, assumiste o leito, o coração do doidivanas, desde então comandas a navegação de cabotagem, a mão no leme, nos lábios a cantiga de Euá: te darei um pente para teus cabelos penteares.
Navio de rodas ou saveiro, de certeza ainda não sei, sei que não é transatlântico de turismo, tampouco iate de milionário, barco de papel em branco, armado em guerra pela boa causa. Daqui a três anos, sim, será nossa festa, o cinquentenário da primeira noite: o porto á vista, as bandeiras ao vento, festejaremos.
Como dizer para nomeá-la? Não direi vulva, vagina, boceta, babaca, não direi, como então designá-la? Ai falta-me o dom da poesia para criar a imagem justa, encontrar comparação para a incomparável. Queria coroá-la com as flores do poema, falta-me a inspiração do bardo, a frágua mágica do vate, prosador terra-a-terra não sei como denominá-la, não a mereço.
Flor de cacto, trago de aguardente, cratera de vulcão, a engole-pau, afeita de cravo e de canela, poço sem fundo, porta-do-oriente, mansão de árabe, mesquita, precipício, a xoxota em fogo de Gabriela.
La chatte de madame, pasto de miosótis, campo de papoulas, chão dos prazeres, mapa do refinamento, caftina de velhos, mestra de meninos, gata em cio, matriz do ipsilone, o xibiu doutor honoris causa de Tieta.
Os três vinténs, a vendida, a comprada, a violada, a conspurcada, fonte de mel, barra da manhã, luz de candeeiro, labareda, nascente d'água, foz de rio, concha do mar, ai a boca do mundo de Tereza.
Não direi rosa chá, marulho, fogo do inferno, bálsamo da estrovenga, o altar-mor a gruta escura, a aurora, a noite, a estrela, a colina do deleite, o ostíolo, a buça de chupeta, a madona, a contadina, a pazza, a louca de albano, Ia mamma, a prova dos nove, os nove-fora, lar da pudicícia, porta da devassidão, apocalipse, não direi abismo onde faleço e ressuscito, não direi mãe de Deus, mulher do cão:
Irei buscá-la onde um dia a coloquei para resguardá-la, a escondi lá onde sabes, no xis de dona Flor, e direi a peladinha de Euá. Direi a peladinha e tu entenderás que a ela me refiro, tomaras da chave da adivinha e abrirás a porta do tabernáculo, cavaleiro e montaria, amazona bravia e árdego ginete percorreremos os caminhos, minha égua se chama a peladinha, teu cavalo se nomeia o bom de trote e de galope.
Na hora derradeira quero nela pousar a mão, tocar-lhe a penugem, a pétala do grelo, sentir-lhe a doce consistência, a maciez, nela depositar meu último suspiro.
Aproxima-se a data dos oitenta anos, por que se considera tão curto tempo de vida façanha a celebrar, empreitada a saudar com estrondo e festa? De toda parte, do Brasil e do estrangeiro, chegam convites para comemorações, atropelam-se as notícias, os projetos, programas infindáveis de solenidades, cresce a pressão para que aceite ir aqui, ali e acolá de ceca em meca, ouvir discursos, pronunciá-los, agradecer elogios de corpo presente, participar de atos, seminários, fóruns, almoços e jantares, quanta coisa se inventa para proclamar-se a caduquice. A generosidade dos amigos, o carinho dos leitores me comovem, mas todo esse cerimonial parece-me conter laivo de despedida, tem ar de adeus em necrológio: aqui repousa em paz, epígrafe em mausoléu, letras de ouro em campo-santo.
Digo não ao discurso, à medalha, à fanfarra e aos tambores, à sessão solene, ao incenso, à fotografia de fardão ou em mangas de camisa exibindo as pelancas e a dentadura, não sou andor de procissão. Dá-me tua mão de conivência, vamos viver o tempo que nos resta, tão curta a vida!, na medida de nosso desejo, no ritmo de nosso gosto simples, longe das galas, em liberdade e alegria, não somos pavões de opulência nem gênios de ocasião, feitos nas coxas das apologias, somos apenas tu e eu. Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua: dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto do jardim, quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento.
Nasci empelicado, de bunda para a lua, uma estreia no peito, a sorte me acompanha, tenho o corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado. A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei. Vivi ardentemente cada dia, cada hora, cada instante, fiz coisas que Deus duvida, conivente com o Diabo, compadre de Exu nas encruzilhadas dos ebós. Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti.
Fujo aos festejos, ao fogo de artifício, ao banquete, fujo ao necrológio, estou vivo e inteiro. Amanhã, passado o obituário de reverências, voltarei ao romance, Bóris, o Vermelho me espera na esquina da máquina de escrever com seu desafio de trapaça e juventude. Obstinado, vou prosseguir com orgulho e humildade a tarefa de emprenhar nos esconsos da cidade, conceber e parir homens e mulheres, capitães da areia, mestres de saveiro, jagunços, vagabundos, putas, são a inocência e a fantasia, nascem de minhas entranhas fecundadas pelo povo, do coração, dos miolos e das tripas, dos culhões.
Não vou repousar em paz, não me despeço, digo até logo, minha gente, ainda não chegou a hora de jazer sob as flores e o discurso. Saio porta afora para o bulício da rua, Bóris, o Vermelho vem comigo, obrigado por tudo, agradeço e vou adiante, vou me divertir, axé.
Bahia-Paris, julho de 1991 / junho de 1992
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Jorge Amado