Navegação de Cabotagem
Nova York, 1971.
*Presidente da República de 1916 a 1920.
Magro gabiru, m agérrim o, usava bigodinho, o cabelo no lustre da brilhantina, recente dom -j uan de pensão alegre, apaixonava-m e, com etia versos livres, não sabia contar as sílabas nem rim ar: teus lábios de carmim, teus seios de coral, teu ventre de bilha enluarada... as raparigas, rom ânticas e carentes, adoravam . Nós, os estudantes, na petulância da adolescência, no arroto da valentia — em Ilhéus a coragem era a virtude m aior, a principal — am eaçávam os a hegem onia dos caixeiros-viaj antes que iam de cidade em cidade vendendo os estoques das firm as da capital, arrebatando corações, castigando xibius. Nas noites do Bataclan nos enfrentávam os, apanhei bastante.
Louco de j ogar pedra e catar caco de vidro, num a das brigas encarei e desafiei um caixeiro-viaj ante de estatura desm edida, um golias, peito de arm ário, m ãos descom unais, devia ser cam peão de luta livre, encarei e desafiei: venha se é hom em . Ao escutar o desaforo, m e m ediu, m olecote atrevido, recém -desm am ado, apertou-m e a cabeça entre suas m ãos, tenazes colocadas sobre m inhas orelhas, sem esforço elevou-m e no ar, aproxim ou m eu rosto de sua carantonha, ordenou-m e: vá pra casa, menino. Abriu as m ãos, soltou-m e, caí de bunda, ai a hum ilhação! Antes tivesse m e dado um tiro (no pé).
Nova York, 1971.
Os racismos
Convidados de Harry Belafonte, participam os, Zélia e eu, do j antar anual da Academ ia de Artes e Letras Negras dos Estados Unidos, no Waldorf Astoria Hotel, em Nova York única ocasião em que tive de vestir sm oking durante sete m eses de estadia nos Estados Unidos.
Experiência em ocionante, honraria alvissareira, som os apenas oito brancos (em m eu caso, branco baiano) em m eio aos m ais expressivos representantes negros da cultura norte-am ericana em sua am plitude e em sua lim itação, m ais de quinhentos m ilitantes anti-racistas levantados contra a discrim inação que persegue e assassina. Viera de acontecer em Attica, prisão onde os negros cum prem pena, o m assacre, o ódio desatado.
Surpresa de ouvir m eu nom e pronunciado na tribuna: Katherine Dunham , a dançarina, fala sobre o que viu e aprendeu no Brasil, a luta singular do povo brasileiro. Em ociono-m e de novo durante a hom enagem prestada a Paul Robeson, am igo e com panheiro, faço parte dos fundadores do Mem orial que recorda sua presença no com bate. O filho do cantor vem até a m esa dos Belafonte conversar com igo, lem bram os Paul em Moscou, em Paris, em Praga, voz dos discrim inados.
Apesar de saber da força e da violência da luta dos negros norte-am ericanos na defesa de seus direitos, espanta-m e o radicalism o dos discursos. A hora é de intransigência e de revide, o m assacre na prisão repercute na sala, a em oção atinge o auge quando a m ãe dos Jackson, os irm ãos assassinados em Attica, órfã de seus filhos, sobe à tribuna e denuncia.
Entendi com o j am ais que a violência conduz à violência, constato a cada dia, durante esses m eses que, nos Estados Unidos, os racism os se entrechocam , o branco, o negro, o j udeu, o latino, o grego, tantos m ais. Existem norte-am ericanos anti-racistas, são m ilhões lutando contra o preconceito de raça e de sangue, m as a filosofia de vida ianque é racista, está presente a cada m om ento. Exatam ente o contrário do Brasil onde existem , sem dúvida, centenas de m ilhares, talvez m ilhões de racistas, m as onde a filosofia de vida é anti-racista, o povo brasileiro é a negação do racism o. Digo o povo, não incluo as cham adas elites.
Acho difícil que alguém tenha escrito tantos prefácios, tantas apresentações para catálogos de artistas, tantas opiniões sobre filmes brasileiros, quanto este vosso criado às ordens, às ordens de todos os que me pedem um elogio. Se me pedem, por que negar que custa fazer um elogio, não sinto pejo em fazê-lo, é tão grande o prazer que se proporciona, brilham os olhos do favorecido, o sorriso nos lábios, a alegria, ele está de acordo com a opinião entusiasta, acha que entendemos de literatura, de pintura, de cinema. Se assim é, por que negar o pedido frito pelo companheiro de jornada?
Não sou crítico literário, Deus me livre e guarde, nem crítico de arte, muito menos de cinema, não me cabe responsabilidade, posso dizer e afirmar tudo quanto queira. Nos meus prefácios todo romance é obra-prima, os poemas marcam época, fazem escola, os quadros da exposição deslumbram pela cor e pela técnica, os filmes de nossos diretores são dignos de Eisenstein, de Fellini, de Orson Welles, de Podovkine. De Podovkine, não, deixemo-lo fora disso, fomos amigos, jantei com ele em casa de Simonov na véspera de sua morte, estava feliz com o último filme que realizara, pela manhã foi jogar tênis, caiu morto na quadra, a raquete na mão.
Pior é quando além do prefácio o jovem autor quer que lhe arranje editor, se eu não o conseguir insinua que, no medo da concorrência, saboto-lhe a estreia. Ou quando o pintor agradecido, envia-me um quadro de presente e exige vê-lo pendurado na parede da casa da rua Alagoinhas. Glauber mandava em mim, abusava, exigia uma frase de bom calibre para o primeiro filme ao rapazola: tem talento e ainda por cima é baiano, uma palavra definitiva para a película de sicrano, o nosso Godard, nada fica a dever ao francês, um pequeno artigo para consagrar de vez um amigo genial e incompreendido. De acordo, digo a Glauber, escreva você mesmo a frase, o artigo, a palavra consagradora, eu assino:
— Com uma condição, não ter que assistir ao filme.
Quem disse! Glauber escrevia, eu assinava, o diretor vinha me buscar para a projeção, Glauber escondia o riso ao me ver marchar Para o sacrifício.