Navegação de Cabotagem
Viena, 1954.
Os ossos
Com pareço ao enterro dos ossos de Corisco, lugar-tenente de Lam pião, m orto em com bate na caatinga pela polícia fardada. Um sertanej o explicou a Ranulfo Prata*: o sertão vive na balança da desgraça, de um lado a seca e os cangaceiros, de outro lado a polícia militar, sozinha pesa mais que os outros dois.
*Ranulfo Prata (1896/1942), escritor.
Ossos escondidos durante anos sob o colchão da cam a por Dada, sua m ulher. Eram duas m ulheres no bando: Maria Bonita, a de Lam pião, e ela, Sérgia da Silva Chagas, a de Corisco. Am parada em m uletas, perdera um a perna nos tiroteios, Dada ganha a vida, sustenta fam ília num erosa com o rendim ento do artesanato de bolsas, reproduções dos em bornais que costurava para os cangaceiros. Em luta desigual contra o terror, conseguiu resgatar a cabeça de Corisco da exibição no m acabro m useu que os doutores da falsa ciência instalaram nas dependências da Faculdade de Medicina — ali o poder do latifúndio expôs para exem plo e escarm ento as carantonhas de Lam pião, de Maria Bonita, de Zé Baiano, de Corisco, dos dem ais do grupo. Havia quem considerasse esse m useu um a casa de cultura.
Falsa ciência, falsa cultura: é o que m ais se vê. A cultura nasce do povo, ele a conserva viva e leva avante na realização dos m estres. Privei com alguns dos m estres, dos verdadeiros, no universo da ciência, das letras e das artes: Picasso, Sartre, Frédéric Joliot-Curie, m eu privilégio foi tê-los conhecido. Não m enor o apanágio de ter m erecido a am izade dos criadores da cultura popular da Bahia, de dizer irm ão a Cam afeu de Oxóssi, de haver sido m ote para trova de cordel de Cuíca de Santo Am aro e de Rodolfo Coelho Cavalcanti, de possuir casarios de Willy s, de Licídio Lopes, igrej inhas de Cardoso e Silva, m adeiras do Louco, de acom panhar Pastinha até a últim a roda de capoeira angola, de ser sócio rem ido do afoxé Filhos de Gandhi.
Viena, 1954.
A pressa
Egy dio Squeff* surge no hotel em que estou e no qual se hospedam dirigentes partidários, personalidades do Conselho Mundial da Paz. Regressa da China onde perm aneceu durante seis m eses, enviado pelo pecê para estudar j ornalism o — com o se Squeff não soubesse j ornalism o para ditar cátedra no Rio e em Pequim . Hóspede do partido chinês, habitou num a casa destinada a quadros responsáveis, am biente fechado de alta hierarquia.
*Egydio Squeff (1911/1974), jornalista.
Acom panho-o ao quarto onde deposita a m ala e um enorm e em brulho em papel pardo, m aterial que o pecê chinês envia para o pecê brasileiro no quadro do intercâm bio ideológico, Egy dio guarda o pacote no arm ário. Som os velhos am igos, na alegria do reencontro desej o prolongar a conversa, saber das últim as realizações da grande república popular, do socialism o na versão m aoísta, m as Squeff m ostra-se pouco disposto ao bate-papo político. Viaj ará na m anhã seguinte para Paris de onde seguirá para o Rio, trocará de avião no aeroporto. Dispõe de pouco tem po em Viena.
Manifesta extrem a urgência de ir às putas, im ediatam ente: Posso em prestar-lhe alguns xelins para o descarrego? Os cam aradas chineses forneceram -lhe uns m agros dólares, o j usto para o hotel austríaco, os táxis, o alm oço na escala em Paris, se gastar com m ulheres correrá o risco de ficar desprevenido. Estranho a correria atrás das quengas, pois sei que no Brasil Maria Paulistana aguarda, am ante m ais ávida e m ais sábia não poderia ele desej ar, por que não esperar as quarenta e oito horas que faltam para o encontro com a bem -am ada na cam a das sabedorias, dos refinam entos? Squeff não esconde a im paciência: — Jorge, hoj e com pletam seis m eses e cinco dias que não sei o que é m ulher. Seis m eses e cinco dias reduzido à bronha, m eu irm ão, à m asturbação, seis m eses de punheta, não aguento m ais. Os chineses só faltaram m e capar. Na China trepar fora do lar é crim e, quem se atreve paga caro. Caro dem ais.
— Não m e diga... Nem um a chinesinha?
— Nem pensar. Estritam ente proibido. Não digo que não houvesse algum as que até dariam com satisfação, m as cadê coragem ? Na China, seu Jorge, pior que a castidade só o m edo. Chega de punheta, hoj e é m eu dia, Deus é grande. Passa-m e os xelins, depressa.
Passo-lhe os xelins, Squeff se inform a na portaria do hotel, sai em disparada.
Você não acredita, Ester Lavigne Sá Barreto, baiana de Itabuna, parenta de Artur Lavigne e de Ray m undo Sá Barreto, ancorada em Blum enau, Gabriela nessas frias alem anhas, em sua carta nega-me o direito à modéstia, pois sendo escritor devo ser de natural vaidoso, cheio de mim ao sol de minhas merdolências. Invocando a qualidade de leitora exige lhe revele ao menos uma das muitas razões que decerto imagino possuir para gabar-me, encher-me de ufania, balão inflado ao vento, não um balão qualquer, mas o próprio Zepelim.
Pois lhe revelarei motivo de vaidade, quando o recordo penso que algo fiz pela terra da Bahia, nossa terra, chão e céu. O motivo é duplo, condiciona a ciência e a arte. Trata-se da descoberta mágica, do encontro da pátria verdadeira, território para a pesquisa e a criação, do desembarque de dois cidadãos eminentes, dois dos que mais concorreram para fazer da Bahia o que ela é, reconstruir-lhe a memória, restaurar-lhe a vida. Homem de ciência o mais velho, etnólogo, historiador, feiticeiro; artista o mais jovem, mestre do desenho e da aquarela, pintor e escultor, um duende, um capeta.
Pierre Verger, aristocrata francês, Fatumbi na África negra, no reino de Oyó, Ojuobá na Bahia, Verger estudou e revelou os laços umbilicais que ligam África e Brasil: o tráfico dos escravos, a saga dos orixás, os ritos afros e os ritos brasileiros dos candomblés, semelhanças e diferenças, a ciência das folhas e da adivinhação, o mistério e a mistura. Um dia o fidalgo gaulês abandonou a partícula, as armas e os brasões, as cartas de nobreza, com a máquina fotográfica a tiracolo partiu para o Oriente: sua obra de fotógrafo, da China a Cuba, da Tailândia ao Haiti, o retrato em corpo inteiro da Bahia dos anos 50, é incomensurável. Maior só a do cientista, a do Doutor de la Recherche Scientifique de France, o colaborador de Roger Bastide, o babalaô Fatumbi, Professor da Universidade de Ifá no reino de Xangô, especialista em assuntos africanos na Universidade Federal da Bahia, Ojuobá no terreiro do Opô Afonjá, levantado por mãe Senhora, a venerável.
Pierre Fatumbi Ojuobá Verger veio para a Bahia porque leu a tradução francesa de Jubiabá, ou seja, Bahia de Tous les Saints.
Nascido em Buenos Aires de pai italiano e andejo e de mãe brasileira, Hector Júlio Paride de Bernabó — nome demais para um artista, bom nome para cantor de tango: Júlio de Bernabó, el Bandoneón Divino, para cafifa: Hector Paride, el Papito, ele o abandonou pelo de Carybé —, andou por ceca e meca buscando a pátria, pintou o bode no planalto andino, atravessou os pampas a cavalo envergando poncho vermelho e barrete frígio para engabelar Nancy — e a engabelou —, um dia leu Jubiabá em tradução argentina, embarcou para a Bahia.