Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 23 de 262

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Rio de Janeiro, 1983.

Alguns dias depois recebo, enviados por Pelópidas da Silveira*, recortes dos j ornais do Recife anunciando m eu apoio à candidatura de Jarbas Maranhão. Pelópidas, espantado, decepcionado, pergunta: qual o motivo dessa carta absurda? Leio a m issiva estam pada em todos os j ornais: o texto, na viagem de m eu apartam ento à casa do candidato, reduzira-se bastante. Dos três parágrafos que a com punham restaram apenas os dois pequenos, o elogio a Jarbas Maranhão e os votos de sucesso na cam panha. O parágrafo do m eio, o grandão, onde eu fazia a apologia de Miguel Arraes e dizia de m eu com prom isso com sua chapa, fora cortado e j ogado fora. Quem teria utilizado a tesoura: Jarbas, no Recife, ao receber a carta ou j á saíra do Rio adaptada? Até hoj e não sei. Vinguei-m e. Jarbas foi derrotado, eu andava pela Bahia, telegrafei a Eduardo Portella: "Apesar de nosso apoio Jarbote tubulou."

*Pelópidas da Silveira, político.

 

Rio de Janeiro, 1983.

Os tijolos

No speech que im provisa ao receber o Prêm io Molière, Fernanda Montenegro conta que um de seus avós, operário italiano, trabalhara de pedreiro na construção desse Teatro Municipal do Rio de Janeiro onde tenho a honra de lhe entregar a láurea: m ais m erecida, im possível.

O avô im igrante colocara os tij olos, levantara as paredes do teatro em cuj o palco, com plateia de pé a aplaudi-la, a neta gloriosa, a estrela, busca conter as lágrim as. Gloriosos, ela e o m arido, Fernando Torres, e a filha, a outra Fernanda, a j ovem , a bisneta do pedreiro, palm ilhando os cam inhos abertos pela m ãe.

Fernanda Montenegro, artista notável, cidadã exem plar, voz e garra na luta pela dem ocracia, concorreu para o fim da ditadura m ilitar. Convidada a assum ir o Ministério da Cultura por José Sarney, pediu quarenta e oito horas para refletir. Enquanto pesava os prós e os contras, a notícia circulou, quando ela se deu conta a fila dos pretendentes a sinecuras e a m ordom ias dava a volta no quarteirão. Não houvesse outras razões, bastaria essa para que, apavorada, agradecesse e recusasse.

 

Rio de Janeiro, 1942

 

Política

No m eio da noite som os retirados da Casa de Correção, levados à Polícia Central, m ais um a vez identificados, notificados da residência obrigatória, cada um na cidade de seu nascim ento — no m eu caso a polícia se engana, dá-m e a capital do Estado com o dom icílio, sou baiano da zona do cacau, nasci no m unicípio de Itabuna. Mandam -nos em liberdade por volta das três da m adrugada, chove a cântaros.