Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 118 de 262

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Navegação de Cabotagem

Luanda, 1979.

A cada ida à União Soviética em penhava-m e na busca do livro, falei com m eio m undo, com todos os que se interessavam por literatura brasileira, editores, críticos, tradutores. Soube por Iuri Kalugin* que o tradutor (ou a tradutora) possuía um único exem plar, não o podia ceder, term inei por desistir. Im agine-se m inha alegria quando em 1957 o m esm o Kalugin m e entregou o volum e que pertencera à tradutora — era tradutora, sim . Morrera, Kalugin confiscara o exem plar, guardara para m im , Zé Lins vai ficar contente.

*Iuri Kalugin, jornalista soviético, tradutor para o russo de livros brasileiros.

Trago o livro com igo, o m oleque Ricardo falando russo, apenas chego fico sabendo que o rom ancista está às vésperas da m orte, toco-m e para o hospital, lá encontro João Conde à cabeceira do enferm o. Entrego o volum e a Zé Lins, a alegria inunda-lhe o rosto: é verdade, existe, eu não acreditava. Folheia o volum e, espia as páginas com o para se convencer, j á não cabe dúvida nos olhos úm idos.

Na porta do elevador João Conde soluça no m eu om bro.

Na Bahia leio A Tarde diariamente, em Paris Le Monde, é um vício, não passo sem eles, se não os leio fazem-me falta: têm a cara do lugar. Nos outros lugares leio o que me vem à mão, sem preferência.

Na China, ao tomar dos jornais, compreendi o que é a dor de ser analfabeto, não podia sequer traduzir o alfabeto cirílico para o latino como buscava fazer em Moscou, empunhando o Pravda. Em Xangai publicavam um tablóide de quatro páginas em inglês, Xangai News, e eu, que de inglês sei menos que qualquer chofer de táxi, li-o de cabo a rabo, como se estivesse lendo português. Em Ulan Bator, na Mongólia, caiu-me nas mãos um volume em alemão, me pareceu de leitura fácil. Pude dar-me conta de que tratava de espécies animais.

Luanda, 1979.

O preço pago em sangue

No alm oço de despedida oferecido pelos escritores de Angola ao confrade brasileiro, no brinde de Luandino Vieira a confidencia:

— Paguei com sangue a leitura de teus livros.

Narra acontecim ento de 1954: o colonialism o português, opressão política, a censura a j ornais e livros, a luta áspera. Indo para casa, passou na livraria para dar um a olhadela, o livreiro lhe fez sinal que esperasse a partida do freguês. Mostrou-lhe então, com as precauções devidas, a preciosidade rara e cara: os três volum es de Os Subterrâneos da Liberdade, edição brasileira recém -saída, recém -chegada, recebida e vendida por vias travessas, o negociante arrisca-se, para arriscar-se cobra alto.

Assanhado, Luandino pergunta o preço, consulta os bolsos, conta os caram inguás, nem m etade do necessário, onde arranj ar o resto? Não venda, venho buscar, avisa, parte à procura de quem possa lhe em prestar a quantia avultada para o pobre subversivo, não será fácil. Vai em agonia, eis que depara em seu cam inho com um banco de sangue aberto no hospital. Nem um m inuto de vacilação: entra, arregaça a m anga da cam isa, estende o braço, a veia, vende sangue, sangue bastante para com pletar o pagam ento dos volum es dos Subterrâneos, volta em m archa forçada à livraria.