Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 201 de 262

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Istambul, 1989.

Pierre Loti

Ver, ouvir, rir com Yachar Kem al*, tenho a im pressão de reencontrar Nazim Hikm et**, feitos os dois da m esm a argam assa turca, m istura da m iséria e do heroísm o popular com a luta e a esperança, a argam assa do sonho, m atéria da poesia de Nazim , da narrativa de Yachar.

*Yachar Kemal, escritor turco.

**Nazim Hikmet (1902/1963), poeta turco.

Visitam os o Museu Pierre Loti, do alto da praça, abancados à m esa do café, contem plam os Istam bul, o povo nas ruas a passear, em cada canto sítios onde deter-se para o gozo da conversa, cidade onde viver e am ar, ao fundo a beleza do Bósforo. Acanhado e pobre, o Museu Loti guarda m em ória do escritor francês que m orou na Turquia e a estim ou: louvou-lhe a paisagem , descreveu-lhe os costum es. Conto a Yachar um a história, passou-se na URSS, durante os festej os do cinquentenário de Nazim , em 1952.

O ato m aior das com em orações do cinquentenário aconteceu na Sala Tchaikovski, sessão de gala com a presença do poeta — Nazim vivia num a dacha nas aforas de Moscou. Após os discursos, as saudações, as m ensagens, o aniversariante subiu à tribuna para agradecer e dizer poem as — a seu lado sucediam -se escritores soviéticos, Nazim declam ava um poem a em turco, o soviético declam ava a tradução que dele fizera, em russo ou em outra língua da União Soviética, hom enagem à altura da grandeza e do internacionalism o do turco. Convidados, lá estávam os na prim eira fila Zélia e eu.

Acom panhava-nos com o intérprete Satva, filha de Otávio Brandão, com unista histórico, exilado na URSS nos anos trinta. Satva, um a soviética, pois ali chegara m enina, ali crescera, estudara, se form ara, se casara, tivera filho, trabalhava na Rádio de Moscou, redigia e apresentava program as em língua portuguesa, encanto de pessoa, despida de m alícia. Soviética exem plar, continuava contudo brasileira no am or à pátria distante, Otávio ensinara o Brasil às filhas, eram quatro, recitava-lhes Castro Alves, cantava-lhes sam bas — m odificava as letras para fazê-las revolucionárias, lim pá-las do sal e da pim enta —, arriscava feij oadas apesar da falta de ingredientes.

Enquanto Nazim declam ava em turco, Satva nos inform ava sobre o poeta que esperava na tribuna para ler a tradução. Na vez de Konstantin Sim onov, nosso am igo, Satva, dispensada de biografá-lo, ao dar-se conta de que o poem a de Nazim tratava de Pierre Loti, aproveitou para nos contar com o durante sua adolescência o pai Otávio lia para as filhas páginas dos livros de Loti que ele considerava adm iráveis, sobretudo as descrições de recantos de Constantinopla e da vida na Turquia. Satva guarda lem brança enternecida dessas leituras, sente-se grata a Nazim por ter dedicado um poem a ao autor que a fizera sonhar com o Bósforo.

Nazim chega ao fim do recitativo em turco, Sim onov, antes de iniciar a leitura da tradução, pronuncia palavras de adm iração e afeto, conta do trabalho que lhe custara colocar em língua russa os versos de fogo escritos pelo irm ão e cam arada. Com petente, Satva traduz o discurso palavra por palavra. Sim onov passa ao poem a, Satva atenta ouve os prim eiros versos, de súbito coloca a m ão sobre a boca num gesto de assom bro: