Navegação de Cabotagem
Samarkand, 1951.
Que fim teriam levado os m anuscritos de Gabriel, onde estarão? Quem sabe não estarão perdidos, virão um dia à luz das livrarias? A circunstância da m orte de Gabriel quando exercia o cargo de Em baixador do Senegal j unto aos governos de língua alem ã — nas duas Alem anhas, na Suíça, na Áustria — até hoj e persiste envolta em m istério e dúvida. Gabriel d'Arboussier, o sorriso único, a alegria de viver a vida um a aventura plena de possibilidades, dele tenho saudades todos os dias, foi m aior do que o papel que lhe coube representar.
Samarkand, 1951.
O bardo
Aqui decorreram as histórias de Sheerazade, palácios, ogivas pátios das m il e um a noites, a cidade das odaliscas e dos sultões, eu as busco nos becos, nas m esquitas, nas ruínas, nos m ausoléus, na fascinação de Sam arkand. Perpassam nas ruas as som bras de Tam erlão, nasceu em Kech, subúrbio da cidade, e de Alexandre, o Grande, que a ocupou com seus exércitos.
Fosse cidade de país capitalista, o visitante encontraria boates no esplendor da putaria oriental, as sheerazades fariam strip-tease m as ai, estam os em república soviética, a do Usbequistão, o socialism o real possui fachada puritana, a devassidão é prerrogativa dos dirigentes, para o povo resta a m ão de bronha. Em vez de irm os à boate para a dança dos sete véus, vam os ouvir o bardo m ais célebre da República.
Na fraude da fraternidade entre as nações que constituem a URSS, na im postura do desenvolvim ento das culturas nacionais, os bardos usbeques, afegãos, turcom ênios, azerbes, quirdij isques, tadj iques estão em m oda, postos em relevo nos palcos, levados em triunfo às capitais das dem ais repúblicas para que recitem seus poem as, infindáveis lengalengas, com o acom panham ento de estranhos instrum entos, violas árabes. Recordam -m e os cantadores nordestinos, os trovadores de cordel, são velhos de barbas brancas, quanto m ais velho m ais fam oso e respeitado.
O bardo que nos cabe aproxim a-se dos cem anos, parece m enos, insinuo a Marina* que talvez aum ente a idade para obter cachê m ais alto, Zélia cham a-m e às falas, exige que m e com porte: o bardo vibra o instrum ento — o verbo é im próprio, m al se escuta a vibração —, reza um a cantilena que um m oscovita com cara de m alandro carioca traduz para o russo, do russo para o português Marina se ocupa.
*Marina Kontrizin, intérprete.
De início, dois ou três poem as cantam a natureza, o trabalho dos colcozianos, as grandezas da pátria soviética, o prato de resistência, porém , é poem a desm edido pelo tam anho e pela adj etivação, canto em louvor a Stalin, pai da pátria, do povo, da hum anidade, do universo. Pouco se ouve a voz do bardo longevo m as a tradução em russo ressoa altissonante na voz do intérprete loiro e j ovem . Jam ais se gastou tanto adj etivo de consagração, a apologia vai em crescendo, aonde chegará? Marina traduz da tradução, im prim e o ritm o do russo que por sua vez tenta im itar o da cantoria do usbeque.
De repente cresce a voz do bardo, torna-se audível, cresce tam bém a do m alandro de Moscou: Stalin é o próprio Deus, o Ser Supremo, Marechal da Vitória, junto a ele Alexandre, o Grande, fazia as vezes de soldado raso, no máximo chegará a caporal. O bardo larga o instrum ento, gesticula, grita o verso, o tradutor se eleva tam bém ele, repete os gestos com que o bardo acentua o heroísm o: Stalin genial, libertou os povos, salvou a humanidade. Eis que, na prim eira fila da plateia, quase ao nosso lado, levanta-se um usbeque m agro, de barba rala e voz tonitruante, brada aos céus, Marina arregala os olhos azuis de eslava, a gargalhada é dela e da sala inteira, envolve em riso a tradução: