Navegação de Cabotagem
Praga, 1991.
Inconsequentes nem tanto, ignorantes decerto, arrasávam os reputações literárias, sob a pecha de academ icism o, parnasianism o, passadism o. Ser passadista, crim e sem perdão, nós, os Rebeldes, fazíam os j ustiça sum ária, enterrávam os livros e autores. Nem im aginávam os que pudéssem os ser a Jovem Inquisição Literária desem barcada na Bahia.
Com igo, tudo bem , na frente da batalha dos m odernistas contra os passadistas. Escrevia horrores a propósito de tantos e tantos outros que depois vim a ler e a adm irar, de alguns m e fiz am igo, estim ei: Afrânio Peixoto, por exem plo, presença determ inante na vida cultural, ser adorável. Só m e deu rem orso naquele então de pasquinadas o insulto a Coelho Neto, de todos o m ais agredido, reduzido à últim a expressão: lhe neguei pão e água, para sem pre o condenei por m edíocre prosador, insignificante rom ancista. Coberto de vergonha, pois dele havia lido o Rei negro e gostara, gostara do estilo e da inventiva. Não tínham os o direito de gostar.
Praga, 1991.
Caça às bruxas
Presido a sessão dedicada aos intelectuais e à dem ocracia no Fórum Cultura e Dem ocracia, reunido em Praga sob os auspícios da UNESCO e do Presidente Havei, da Tchecoslováquia. Estão inscritos para debater o tem a os rom ancistas André Brink, da África do Sul, Tahar Ben Jelloun, de Marrocos, o húngaro Jorgen Konrad, Presidente do Pen Club Internacional, o Presidente do Conselho Nacional de Cultura do México, Victor Flores Oj ea e Jean Daniel, diretor de Le Nouvel Observateur. Os Problem as se avolum am com a abertura para a vida dem ocrática dos países até ontem satélites do im pério soviético.
Antes de passar a palavra aos oradores inscritos, eu a concedo e Graça Machel, viúva de Sam ora Machel, líder do povo m oçam bicano na luta pela independência, vitim ado num desastre de avião. Pedira-m e que lhe concedesse a oportunidade de ler declaração assinada pelas m ulheres presentes ao Fórum que se consideram discrim inadas, não obtiveram direito à tribuna. Concordo, lhe concedo a palavra, o protesto fem inista ressoa na sala. Ao rom per com o protocolo da reunião, exerço, creio, a dem ocracia, tão falada e badalada, tão lim itada e desservida.
Ao abrir a sessão pronuncio algum as palavras de inquietação e alerta que repercutiram além dos lim ites da sala de debates, do âm bito do Fórum . Inquieta-m e ver iniciar-se nova caça às bruxas am eaça m ortal à débil dem ocracia que tenta se estabelecer sobre as ruínas das ditaduras apeadas do poder no leste europeu.
Na União Soviética, o presidente da Rússia, Boris Ieltsin, ainda ontem m em bro do Bureau Político do PCUS, tenta colocar seu antigo partido na ilegalidade, num gesto tão antidem ocrático quanto os que praticara ao tem po de dirigente m arxista-leninista. Correta e necessária, a decisão de retirar o pecê do aparelho do Estado, das repartições civis e m ilitares, privá-lo dos privilégios de partido único, de força dirigente. Mas colocar os com unistas na ilegalidade, negar-lhes o direito a pensar e a opinar, é repetir o autoritarism o bronco e brutal do regim e m arxista derrotado. Onde a dem ocracia recém -conquistada?
Assusta-m e a explosão de um a nova caça às bruxas, a perseguição ideológica, em nom e da dem ocracia, àqueles que ontem , por essa ou por aquela razão, de consciência, de seita ou de vil interesse, não im porta, foram ou são com unistas, exerceram atividade partidária com m aior ou m enor responsabilidade. Vej o crescer nos países das antigas dem ocracias-populares a tendência a delatar, a perseguir, a condenar, vej o im por-se a m esm a desgraçada realidade política que caracterizou a era com unista. Inclusive na Tchecoslováquia, em contradição com sua revolução pacífica, sem sangue e sem desespero, m esm o em Praga sinto a voz de vingança e de ódio pedir leis iníquas, antidem ocráticas.