Navegação de Cabotagem
Bahia, 1977.
Segundo congresso afro-brasileiro
Os anais refletem e expõem as diferenças a m arcarem o dois Congressos Afro-Brasileiros: editados* pela José Oly m pio os do prim eiro, realizado em Recife em 1934 sob a égide de Gilberto Frey re, os do segundo, reunido na Bahia em 1937, posto de pé por Edison Carneiro, saíram num a coleção de estudos dirigida por Artur Ram os**. Diferenças patentes.
*Na coleção Docum entos Brasileiros
**Editora Civilização Brasileira.
O Prim eiro Congresso foi esforço e com prom isso de intelectuais, a participação direta do povo negro quase não existiu, ficou reduzida à festa oferecida aos congressistas por pai Adão em seu xangô. Na Bahia, tam bém o Segundo Congresso contou com a participação de m estres da categoria de Donald Pierson, Artur Ram os, de Edison e do m aestro Cam argo Guarnieri, teve além disso a presença efetiva, na organização e nos debates, de figuras ím pares da cultura negra, basta citar a iy alorixá Aninha e o babalaô Martiniano Eliseu do Bom fim , na época um a espécie de Papa das religiões de origem africana. Os grandes candom blés da Bahia, das diversas nações, festej aram o evento, o pej i de Yem anj á, no Axé Opô Afonj á, foi inaugurado durante o Congresso. Aninha m e levou a ver o orixá, suspendeu o candeeiro sobre as com idas do santo nas gam elas de barro, abriu a cortina, do outro lado estava Yem anj á: um a nascente de água.
O Congresso da Bahia significou um passo adiante nos estudos sobre o negro brasileiro, foi tarefa dos intelectuais e do povo. A presença da África não se reduziu a tem a para o estudo de eruditos, foi passo de dança, cantiga ritual, depoim ento vivo. Coube-m e a honra de saudar, em nom e dos congressistas, m ãe Aninha e pai Martiniano, eles eram a origem e o futuro.
Ainda está por avaliar-se a im portância de Edison na im plantação e no desenvolvim ento dos estudos sobre o negro no Brasil, não apenas os livros que escreveu e publicou, hoj e clássicos, m as tam bém a atuação quotidiana. Todos nós fom os levados às casas-de-santo por sua m ão de iniciado. Por ter sido o pioneiro, m arcou com as cores políticas da esquerda o m istério dos axés. Não por acaso quando os inim igos da dem ocracia estabeleceram a ditadura do Estado Novo, os candom blés foram abrigos de perseguidos, esconderij os de com unistas. O próprio Edison encontrou refúgio no pej i de Oxum , no Opô Afonj á. Ainda ekede, m ãe Senhora, guardiã da casa do encantado das águas m ansas, estava no segredo, cuidou do fugitivo, aprendeu e ensinou.
Lisboa, 1991.
Elogio
No decorrer da concatenação e da escrita destes apontam entos, por m ais de um a vez, ao m enos três, pensei m e referir ao Tivoli, hotel de Lisboa, dar testem unho. Ao redigir o apontam ento onde recordo Gilberto Frey re saindo do hall do hotel para ir alm oçar no restaurante da Mim i, cheguei a abrir parênteses para cantar loas ao Tivoli, a louvação se alongou, extralim itou da nota, abri o parênteses, não cheguei a fechá-lo, sobrou.
Mas hoj e aconteceu-m e ouvir de Vinagre*, um dos chefes da portaria, m eu correligionário de ideias, a inform ação de que estou com pletando vinte e cinco anos de hóspede do Tivoli, a data exige com em oração. De fato aqui nos hospedam os, Zélia, João Jorge, Palom a e eu pela prim eira vez em j aneiro de 1966. Era inverno, João Jorge com pletara 18 anos, barba à Che Guevara, universitário subversivo e nam orador, vestia calças lee desbotadas com gloriosos rasgões, envergava sectário sobretudo russo, o m eu celebérrim o Couraçado Potem kin, m etido nele cruzei os invernos socialistas, de Praga a Pequim , de Ulan Bator a Sofia, de Varsóvia a Budapeste, de Bucareste a Moscou, desafiei o frio e a neve, os cinquenta graus abaixo de zero na travessia da Sibéria: tecido grosso, gola de pele, vinha até os pés, não havia frio para ele. Vinha até os pés m as ainda assim dava para ver que João Jorge calçava tênis e não usava m eias, o pessoal do Tivoli se perturbou: ainda não vira hóspede tão original.