Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1954.
*José Paulo Paes, escritor.
**Edição Leitura, 1959.
Na Academ ia dos Rebeldes venerávam os Artur de Sales, m as em se tratando de m odernos j urávam os por Sosígenes, m em bro da Academ ia, opúnham os seu nom e aos da constelação do Arco & Flexa: Godofredo, Carvalho Filho, Ram ay ana, Hélio Sim ões. Nascido em Belm onte, cuj o m ar cantou, o mar deixou muita cousa: aqui por estes quintais, vivia em Ilhéus, dentro da noite, Ilhéus rebrilha / qual grande búfalo de fogo, secretário da Associação Com ercial, retraído ao extrem o, poucas am izades. Entre as quais dona Eulália e o coronel João Am ado que o estim avam por sabê-lo poeta e pelo esm ero da educação. Sosígenes aparecia para alm oçar, dem orava-se a cavaquear, a com entar a vida da cidade, m esm o recluso estava a par de tudo, glosava com m ordacidade, o coronel se regalava.
Minha prim a Diná passava as férias em nossa casa, tínham os a m esm a idade, bonitona, despreconceituosa, m oderna, assanhada, sapeca dizia m inha m ãe, apostou com igo que nam oraria Sosígenes, m odificando-lhe os hábitos sexo-sentim entais, duvidei. Fez-lhe a corte, conseguiu, arrulhavam à noite na m eia-luz da varanda deserta, o nam oro entusiasm ou o coronel. Estão vendo? O que dizem dele não é verdade, gosta de mulher, vive nos agarros com Diná. O coronel gostaria de levar os m aldizentes para ver e crer.
Diná esperava acordada que eu chegasse do puteiro para dar-m e relatório do cham ego, os progressos do poeta no conhecim ento de seu corpo de m ulher, polegada a polegada, beij o a beij o. Um a noite a encontrei feliz, cantou vitória: sabes onde me beijou hoje? Adivinha! Lá? — quis saber. Lá!, m e respondeu.
A m alícia deu lugar ao devaneio: sabes como ele chama aquela lá? Adivinha. Chama de fonte: bebi em tua fonte, me disse, lindo, não é? Na noite seguinte m e deu a ler o poem a que para festej ar o acontecido Sosígenes escrevera e lhe entregara copiado a m ão, se intitula Vou na fonte beber água: bebo então a água de teu rosto / nesta redoma cheia de sabão / como se bebe água de flor com gosto / nesta bacia que se abriu no chão.
Os radicais da negritude nacional são mulatos brasileiros, uns mais escuros, outros mais claros, cujo único ideal fia vida é serem negros norte-americanos, de preferência ricos.
Rio de Janeiro, 1954.
Os anarquistas
Deslum bra-m e a conversa dos dois velhos anarquistas, o escritor e a operária: o m undo liberto das inj ustiças e dos preconceitos, nem o poder do Estado, nem a lei fosse qual fosse. Trinta anos depois escreverei um rom ance, Tocaia Grande, nascera naquele dia quando dona Angelina chorou de em oção ao abraçar Thom as da Fonseca*.
*Thomas da Fonseca (1877/ 1968), escritor português, líder anarquista.
Thom as da Fonseca, prosador ilustre, em Portugal m ais do que ilustre, um a legenda viva, sím bolo da resistência ao fascism o, da audácia do pensam ento livre: o sonho da sociedade sem fronteiras de qualquer espécie. Angelina D'Acol Gattai, im igrante italiana, tinha quatro anos de idade quando desem barcou no Brasil, a fam ília de cam poneses vênetos de Pieve di Cadore veio trabalhar nas fazendas de café de São Paulo após a abolição da escravatura. Aos nove anos Angelina entrou de operária têxtil num a fábrica do Brás, na pauliceia desvairada. Fez-se anarquista ao conhecer Ernesto, os Gattai vieram de Florença, atravessaram o m ar nos porões im undos para realizar o sonho do agrônom o Giovanni Rossi: fundar nas selvas do Paraná a Colônia Cecília, experiência de sociedade anarquista na Am érica, sob o patrocínio de Dom Pedro II, Im perador — j á então era o Brasil um país surrealista. A colônia durou quatro anos, a m esquinhez do quotidiano a liquidou, m as as ideias libertárias afirm aram -se e floresceram na cidade de São Paulo das prim eiras indústrias e dos grêm ios das classes laboriosas. Angelina nam orou o m ecânico Ernesto nas reuniões e festas operárias — im igrantes italianos, espanhóis e portugueses encontravam -se, discutiam , discursavam , declam avam , encenavam peças. As poesias e as canções anarquistas da península, as peças de Pietro Gori: Angelina, prim eira-dam a no palco proletário. Ressoava o canto da Catalunha em fogo: donde vascon paquetes y listas / que tan pronto te veo correr / voy al Congreso de los anarquistas / que reclaman un derecho: vivir / Escúchame un momento se quieres / Anarquista, que quiere decir? /Es la inmensa falange obrera / que reclama un derecho: vivir! Os poem as de Guerra Junqueiro, os livros de Thom as da Fonseca, a italiana Angelina, anarquista brasileira, declam ava o vate português, sabia de m em ória trechos incendiários do prosador. Mesm o quando o m arido Gattai subiu na vida, de m otorista dos Prado, paulistas quatrocentões, passou a agente dos autom óveis Alfa Rom eo, de libertário virou m ilitante do Partido Com unista, Angelina m anteve intacta a quim era, o sonho.