Navegação de Cabotagem
Bahia, 1969.
Continua escrevendo? — quis saber. Continuava sim , — Madam e Utzel é um a enciclopédia — porém m udara de gênero, segurem -se para não cair de costas: de proletário passara a rom ancista para j eunes-filles, Coleção das Moças, Bibliothèque Rose, êm ulo de Ardei, Dely, Florence Barclay. Fico em dúvida: será verdade ou Gertrud estará gozando m inha curiosidade latino-am ericana? Rato de livraria, desm azelada, nem por isso deixa de ser vistosa e insolente: quer mais algumas informações? Aqui estou para servi-lo: a boca de m alícia sem i-aberta.
Bahia, 1969.
As cigarras
Transm itida pela televisão, a notícia da m orte de Júlio de Mesquita Filho m e aflige e entristece, saio a andar por entre as árvores do j ardim , sento-m e no banco de azulej os sob a copa da m angueira e o revej o alto e decoroso, cônscio de seu poder e de sua responsabilidade.
A presença de Julinho com provava a possibilidade de convivência civilizada, dem ocrática, a negação do conceito político tão em voga entre a cham ada elite, que considera o adversário inim igo a odiar e a exterm inar. Penso nas relações que m antivem os a partir dos dias de exílio na Argentina, as diferenças não m arcaram distâncias, as divergências não se radicalizaram em confrontos. As cigarras cantam em despedida, a tarde tom ba das árvores de súbito e de vez, a noite chega e m e envolve.
Telégrafo ao Estado de S. Paulo: De Júlio de Mesquita Filho se podia ser ao mesmo tempo adversário e amigo.
Saint-Malo, 1989.
Dépechez-vous
Dépechez-vous, disse-m e o m onsieur na gare de Rennes quando, tendo descido do TGV que nos trouxera de Paris, buscávam os em barcar no trem m aria-fum aça para Saint-Malo. Segundo Zélia recom endar-m e pressa é com eter erro fatal, creio que ela exagera m as quem sou eu para discutir?
Prom etera a Auta Rosa, ainda nas m ordom ias de Porto Rico, levá-la a ver o Mont Saint-Michel e a rezar diante do Menino Jesus de Praga, as duas aspirações m aiores de seus roteiros de viagem , com o que consigo trazê-la à Europa, a ela e a Cala. A França não me estima, declara-m e Auta Rosa, a sério, para com provar a afirm ação conta-m e a queda que levou no bulevar Saint-Germ ain e as duas tentativas fracassadas de alcançar o m onastério de Saint-Michel: da segunda vez chegou a m enos de trinta quilôm etros quando o carro em pacou em definitivo.
Prom essa feita, prom essa em vias de ser cum prida. Em barcam os, os dois casais, no TGV em direção a Saint-Malo em cuj a gare Dodik e Gwen* estarão à nossa espera com hotel reservado e program a de passeios para o fim de sem ana. Em Rennes devem os m udar de trem , o tempo para o transbordo é curto, diz o senhor a quem peço indicar-nos o cam inho: dépechez-vous, m e estim ula. Precipito-m e com bolsas e m aletas para garantir lugares, desço escadas, subo escadas, encontro a com posição, bloqueio quatro assentos, volto à plataform a para esperar Zélia, Auta e Calá, não os avisto, corro a apressá-los, não os enxergo, não estão em parte algum a, fico alarm ado, o pessim ism o de Auta Rosa m e contagia: não será ainda desta vez que a Rainha de Itapuã chegará ao Mont Saint-Michel. Vou até a porta da estação, nem som bra deles, refaço o cam inho, enfrento as escadas, botando os bofes pela boca chego a tem po de ver o com boio partir.