Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 102 de 262

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Paris, 1991.

Certa feita, naqueles idos de cinquenta, Neruda, patriota chileno, am igo devotado, pretendeu obter de Erem burg prefácio, ao m enos um a frase, para o catálogo de José Venturelli*, seu patrício e protegido. Ily a exam inou um a a um a as reproduções que Pablo lhe entregara, ia vendo e exclam ando: execrable!, horrible!, abominable! Pablo não chegou a form ular o pedido.

*José Venturelli, pintor chileno.

O m esm o Ily a Erem burg obteve durante o consulado de Kruchev que lhe fosse perm itido m ontar um a exposição de quadros de Picasso. Apesar das lim itações de todo tipo, nenhum a notícia nos veículos de com unicação, sala acanhada, distante do centro de Moscou, um a única porta para entrada e saída dos visitantes, o desconforto, ainda assim a m ostra foi sucesso sem m edida. A notícia correu de boca em boca; m arcado o vernissage para as dezessete horas, ao m eio-dia com eçou a se form ar a fila» às quatro da tarde era im possível entrar na rua lotada pela m ultidão que am eaçava invadir o local, forçar a porta fechada, que se abriu a m eio enquadrando Ily a: vocês esperaram m ais de trinta anos por essa exposição, esperem m ais m eia hora, não dêem pretexto para que retirem a autorização.

O pedido de Pancetti, a exigência para que eu lhe consiga convite para expor seus quadros em Moscou, sala onde fazê-lo, passou-se bem antes da abertura de Kruchev, durante a ditadura ideológica de Zdanov: exposição de Pancetti, nem pensar. Mas não há razão que o convença, se não expõe em Moscou, em Leningrado, em Kiev, em Tibilice, o culpado sou eu e m ais ninguém . Term ino por m e irritar e m andá-lo às favas: brigue se quiser, dane-se. Danou-se, brigou com igo.

Paris, 1991.

A premiada

Jack Lang* faz-m e subir ao estrado no m om ento da entrega do Prêm io Nacional de Tradução a Alice Raillard. Estam os na Ópera Garnier, assistim os à cerim ônia da outorga dos Prix Nationaux des Arts et des Lettres.

*Jack Lang, Ministro da Cultura da França.

Cada vez que entro no salão nobre da Ópera de Paris sinto-m e ofuscado pela beleza, naquela tarde ainda m ais, pois o prêm io dado a Alice é um pouco m eu, sou seu traduzido, o único presente entre os brasileiros que ela traduziu e deu a ler ao público francês, os dem ais não estão em Paris. Alice traduziu João Ubaldo, Cam pos de Carvalho, Antônio Olinto, Darcy Ribeiro, Raduan Nassar, Dy onélio Machado, o poeta João Cabral, e esse vosso servidor. Leitora das grandes editoras, m ilitante de nossa literatura, m uitos dos livros brasileiros relacionados nos catálogos das casas francesas ali estão por recom endação e esforço seu, de Antônio Torres a Chico Buarque, a ela devem os a publicação da Obra Poética de Drum m ond, das Memórias do Cárcere de Graciliano.

Concorro com m inhas palm as para as ovações com que a audiência saúda Maria Casarés, prêm io de teatro, e Juliette Greco, prêm io da canção. Aplaudo quando se dirigem ao tablado o cineasta Jacques Doillon, o poeta Jacques Roubaud, o pintor Luc Boltanski, quando o prêm io de literatura é rem etido a Louis-René des Forêts, Alice está em boa com panhia. Pergunto-m e quando no Brasil prem iarem os os grandes tradutores, com o Ivo Barroso e Cláudio Veiga os dois transpuseram para o português do Brasil os poetas da frança, em m atéria de prêm ios ainda estam os no regim e das igrej inhas e das cavações, ainda não atingim os a seriedade.