Navegação de Cabotagem
Bahia, 1991.
— Denunciar os pais... Preferia m e m atar. — Considera Alina na hora do recreio.
— Quelle connerie! — Cospe René, apaga o cuspe com o pé.
— Dose para elefante — digo eu.
Espavoridos, três m aus alunos de m arxism o-leninism o no Curso Stalin.
Bahia, 1991.
Dou a mão à palmatória
Por puro acaso, com certa m á-vontade e um tanto adm irado inicio a leitura de entrevista do senhor Fausto Silva nas páginas am arelas da revista Veja: vam os lá ver as asneiras que esse idiota esbravej a. A adm iração resulta do fato de que em princípio essas páginas am arelas são ocupadas por personalidades quase sem pre em inentes, ao m enos distintas, m erecedoras da deferência. Ora, o senhor Fausto Silva não é outro senão o apresentador de televisão Faustão que aos dom ingos com anda program a de grande audiência: nem em inente, tam pouco distinto, no m elhor dos casos um porra-louca, se não im becil de pai e m ãe: sobram no hum orism o da tevê.
Devo confessar nunca ter assistido ao program a do Faustão, apesar das reiteradas recom endações de João Jorge que busca reduzir m inhas idiossincrasias: dá uma espiada, pai, você vai gostar, é muito bom, tem graça e imaginação. Resisto, não aceito o conselho, nenhum outro m otivo além do preconceito: esses j ovens de hoj e se contentam com bem pouco, adoram qualquer porcaria de program a, uso a precaução, defendo-m e da tolice e da im postura. Sou de pouca televisão, tirando o noticiário e o futebol, Chico Anísio e Jô Soares, raram ente fico desperto diante do vídeo, m as o uso com constância, não existe m elhor sonífero: ligo o aparelho, não resisto cinco m inutos à burrice, ao ridículo, entrego-m e ao sono reparador, ronco ao ritm o dos clips de rock, a atroada m e em bala. O program a do Faustão? Nesta não m e pegas, João, o senso de hum or de tua geração não é o m eu, sou antigo.
Vam os ver o que diz esse cretino, com eço a ler, caio de costas, não é nenhum cretino, não esbravej a asneiras, afirm a coisas corretas e não barbaridades, analisa com rara acuidade a televisão brasileira, faz o processo de nossa vida cultural, dos hábitos m esquinhos, das m azelas, a denúncia vai do patrulham ento ao desej o de acabar com o que é bom — o que é bom choca e irrita nossos intelectuais, eles detestam a perfeição e o sucesso. Vou de surpresa em surpresa: o j ovem é um hom em que sabe o que diz e diz coisas que valem a pena ler, a entrevista enche-m e as m edidas. Faustão não é em inente, m enos ainda distinto, m as é um brasileiro que conhece nossa realidade, a sociedade em que vivem os, observa e critica com precisão, um porreta. Entrego os pontos.
Aprendi algum as coisas boas no Partido Com unista, inclusive a autocrítica: reconhecer o erro, dar a m ão à palm atória, sem pre o faço com prazer. Dou a m ão à palm atória, no com eço da tarde de dom ingo estiro-m e na gasta cadeira-de-papai para assistir o program a do Faustão: sentei-m e ainda desconfiado, decerto não tardaria a ressonar com a presepada. Dou as duas m ãos à palm atória: não dorm i, acom panhei a sucessão de quadros com interesse, ri, m e diverti, sobra a razão João Jorge, o tipo tem graça e im aginação, fico com a im pressão de que tam bém ele se diverte com a loucura, o disparate, por vezes a grossura do program a, inscrevo-m e entre os adm iradores radicais do Faustão, que conheci senhor Fausto Silva afirm ando acerbas verdades nas páginas am arelas da revista.