Navegação de Cabotagem
São Paulo, 1965.
No tom badilho do navio discutiam os dois casais, não preciso dizer que acaloradam ente, de outra m aneira não discutem os portugueses, discutiam poesia, assunto explosivo, sob a vista de um grupo de j aponeses postados atentos na am urada. No auge do debate, um dos j aponeses aproxim a-se dos polem istas e a eles se dirige:
— Estão falando português, não é verdade? De onde são?
— De Portugal, ora pois, som os portugueses — contesta David Mourão.
O rosto nipônico se abre em sorriso brasileiro:
— São portugueses... — anuncia ao grupo na expectativa: — ...são nossos ancestrais.
Nossos ancestrais. Pensando nas epopeias lusas no oriente, coitos m onum entais, ignotas descendências, Luís Forj az desej a saber se por acaso eles têm sangue português nas veias asiáticas, um navegador de passagem na rota das descobertas, quem sabe?
— Sangue português? Nós? Não. Som os brasileiros nascidos em São Paulo, os portugueses são antepassados dos brasileiros— ensina. — São nossos bisavós.
De todos os brasileiros, com certeza. Filha de pai e m ãe italianos, Zélia sente-se em casa na cidade de Lisboa, é estrangeira em Florença, onde nasceu seu pai, no Vêneto, terra de sua m ãe.
Nos aviões roubo guardanapos, talheres nos restaurantes, sobretudo colheres de café, nos hotéis recolho e levo para casa todo o material de banho e o mais que haja, meu acervo de sabonetinhos é digno de visita e vistoria pela quantidade e pela variedade intercontinental Tenho sócios, Rízia* quando se hospeda conosco faz mão baixa em meus guardados: quem rouba ladrão tem cem anos de perdão, esclarece.
O hábito dessas pequenas gatunagens eu o aprendi com meu tio Álvaro Amado, mão leve, por onde andava recolhia. Dormindo comigo na mesma cama há quase meio século, Zélia ainda não se conformou, até hoje torce a cara ao me ver enfiar no bolso o guardanapo com a rosa-dos-ventos, a dez mil metros de altura sobre o oceano.
O coronel João Amado passava fácil de perdulário a canguinha, também eu, bom filho de meu pai, navego entre jogar dinheiro fora e economizar moedas de dez réis.
*Rízia, advogada, nora de J. A.
São Paulo, 1965.
Pronúncia
Com issário de Cuba à Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, Guillén vale-se do m elhor os cicerones, o poeta Paulo Mendes de Alm eida, de quem se tornara am igo em viagem anterior. Paulo se encarrega de am pliar o cartaz do cubano nos m eios de com unicação, leva-o a program a de entrevistas num a cadeia de televisão, na época ainda longe das com petências atuais.
O apresentador, pernóstico com o ele só, ao anunciar Guillén aos telespectadores, escandiou-lhe as sílabas dos nom es de batism o e de fam ília: nosso entrevistado de hoje, o grande poeta negro das Américas, glória de Cuba, A-ris-ti-des Gui-llén. Contente da perform ance, dirige-se ao entrevistado, reclam a aprovação:
— Pronunciei bem o nom e do poeta?
O poeta não lhe falta com o elogio: