Navegação de Cabotagem
Rio, 1936.
Nada mais cansativo, mais estafante, mais terrível do que as reuniões ditas sociais, coquetéis, recepções, jantares, festinhas, outras chatices semelhantes.
A obrigação de ser inteligente, os convidados esperando as frases de efeito, a profundeza, o brilho do escritor: é de lascar. Fico apavorado se não tenho jeito de escapar, como ser inteligente ao fim da tarde ou na mesa de jantar de cerimônia, com gravata e paletó? Emburreço por completo, dá-me aquela inibição, emudeço, perco o dom da fala, ainda mais parvo do que no dia-a-dia.
Rio, 1936.
Editor
José Oly m pio ao estabelecer sua editora no Rio de Janeiro, em 1934, revolucionou a indústria editorial brasileira e possibilitou aos escritores nacionais atingirem o público, até então extrem am ente restrito. Ao com entar a prom oção desm edida de livro da autoria de figura prestigiosa — os j ornais não falavam de outra coisa, os críticos endeusavam o autor e a obra, lhe concediam prêm ios —, opina em nossa conversa m atinal, quotidiana, sou em pregado da editora:
— Nenhum a prom oção faz um livro ruim se transfere num bom livro. O noticiário, a crítica de encom enda, os elogios a granel podem enganar o público durante certo tem po, peque De repente, cessado o foguetório, o livro acaba, de vez.
José Oly m pio entendia de livros e autores. Revolucionou a indústria editorial, a afirm ação é correta m as, em verdade, sua em presa, a Casa com o ele dizia ao se referir à editora, j am ais perdeu os contornos patriarcais que caracterizavam a edição brasileira de antes da Segunda Guerra Mundial. A Casa viveu sem pre à som bra do poder do Estado, prim eiro sob a proteção de Getúlio, depois dos m ilitares da Redentora. Proteção que lhe dava segurança e perm itiu a José Oly m pio investir com coragem e visão nos autores nacionais, a Casa foi pátria e fam ília de m ais de um a geração de literatos — poetas, ficcionistas, cronistas, ensaístas — do m odernism o aos j ovens dos anos quarenta: o rom ance de trinta, os estudos brasileiros. Louve-se adem ais a isenção política, plum itivos das ideologias m ais opostas, esquerda e direita, com unas e integralistas, José Oly m pio não fazia distinção: livro bom , ele editava.
Tinha a generosidade dos patriarcas. Lúcio Cardoso, grande rom ancista, não possuía público num eroso, as tiragens de seus livros não ultrapassavam os m il exem plares, enquanto José Lins do Rego saía de cinco m il na prim eira edição. José Oly m pio contratava com Lúcio um a edição de dois m il exem plares, pagava direitos correspondentes aos dois m il, im prim ia m il. Dobrava assim o público do autor de Salgueiro, o público e os direitos autorais.