Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 141 de 262

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Navegação de Cabotagem

Bahia, 1960/ 1980.

Cama de casal, exijo nas portarias dos hotéis, sou casado com comunhão de corpos. Não abro mão do corpo bem-amado no trânsito da noite, calor, desvelo, segurança.

Bahia, 1960/ 1980.

Partidas e contrapartidas

Pintei e bordei com m eus am igos, eles pintaram e bordaram com igo, preguei peças, inventei partidas, enrolei, fui enrolado, burlas e intruj ices, dei e recebi o troco, zom bei, zom baram , o que Cary bé não aprontou às m inhas custas?

Aprontou tantas e tais e eu caí com o um patinho, fosse contá-las escreveria um livro, reduzo-m e a duas delas às quais reagi, levando a m elhor: as outras ele que as conte para rir de novo, o trapaceiro. No m om ento rio eu, se m e dão licença.

Apenas nos instaláram os na Bahia, despedi um j ardineiro, por incom petente. Ao saber, Cary bé, de conluio com Tibúrcio Barreiros*, procurador do Tribunal do Trabalho, arm ou um a daquelas, m e deixou de início nas vascas da agonia. Utilizando papel tim brado do Tribunal, os dois patifes forj aram um a convocação em boa e devida form a — para dar-lhe autenticidade falsificaram a firm a de um j uiz —, m arcando-m e audiência para o dia seguinte, às duas da tarde. Eu deveria explicar porque não pagara o devido ao trabalhador vítim a de dem issão sem j usta causa, o dito cujo apresentara queixa, m otivo para processo e j ulgam ento. Vi-m e arrastado na rua da am argura, acusado de burguês explorador do proletariado, suj eito a m ulta elevada e ao escárnio público.

*Tibúrcio Barreiros (1928/1988), advogado

Fulo da vida, havia pago m ais do que o devido, procurei Walter da Silveira, advogado de sindicatos operários j unto às Varas de Trabalho, contei-lhe do j ardineiro, indenização e gratificação, m ostrei-lhe a convocatória, Walter estranhou: tudo ilegal. Brigão por natureza, ao ver a assinatura do j uiz entrou em transe: esse indivíduo é um mau caráter, meu inimigo, aproveito a irregularidade, vou acabar com ele, fique descansado, deixe comigo. Marcam os encontro no Tribunal na hora aprazada.

Ao chegar em casa Zélia revelou-m e a tram óia e os autores. Estreante em tais enredos, Tibúrcio telefonara às gargalhadas, despej ara o saco. Em troca Zélia lhe inform ou que eu saíra para encarregar Walter da Silveira de m inha defesa, Tibúrcio trem eu nos alicerces, Walter era osso duro de roer. Diga a Jorge que largue de m ão, tudo não passou de brincadeira, Walter é m aluco, volto a telefonar.

Voltaram a telefonar, ele e Cary bé. Pedi a Zélia para atender às cham adas e dizer aos dois com parsas que, para m e vingar, decidira topar a provocação, iria ao Tribunal assistir Walter atirar com a convocatória na cara do j uiz. Foi um deus-nos-acuda, Tibúrcio em pânico, o posto de procurador am eaçado, Cary bé sentindo-se responsável pela dem issão do am igo; eu os cozinhei o dia inteiro, só à noitinha concordei em abandonar a causa, desobrigar o advogado.

A dificuldade foi obter que Walter desistisse da pendência, queria a todo transe desm ascarar o j uiz, desm oralizá-lo. Tive de apelar para os ritos da am izade: vais prej udicar a carreira de Tibúrcio, só então se acalm ou e achou graça.

De outra feita Cary bé afanou no atelier de Mirabeau — fora visitá-lo, não o encontrara — im agem de Nossa Senhora esculpida por Frei Agostinho da Piedade, um a das quatro únicas peças assinadas pelo fam oso santeiro do século dezoito, j óia da não m enos fam osa coleção de im aginária, vale um a fortuna, m enina dos olhos do colecionador, invej a e cobiça dos dem ais. Colocou a im agem no carro, dirigiu-se à casa do Rio Verm elho, subiu a pequena escada que leva à porta de entrada, depositou a santa no batente, tocou a cam painha, caiu ora sem ser visto. Fui abrir, deparei com a peça, identifiquei a m ão de gato de Cary bé, recolhi a im agem e a guardei em lugar seguro, disse a Zélia: vam os nos divertir às custas do com padre. Passado algum tem po Mirabeau telefonou: Carybé não tem jeito, roubou a Nossa Senhora de Frei Agostinho, telefonei, negou, atribuiu a você, disse que a viu no Rio Vermelho. A m im ?, protestei. Tu sabes que não sou de brincar com santos de coleção, m uito m enos com peça de tal m onta — era verdade —, deve estar em casa dele, isso sim . Mirabeau ficou um tanto inquieto: vou falar com ele de novo, disse, brincadeira tem limite: a Pietà vá lá, ele ja roubou mais de dez vezes, numa delas levou uma semana para restituir, mas a peça assinada de Frei Agostinho já é demais. Botei lenha na fogueira, lem brei-lhe o quadro de Jenner: tens toda razão, Cary bé está abusando, im agine se ele perde a im agem ou se decide ficar com ela? Onde anda o quadro de Jenner que ele tirou de teu escritório na vista dos em pregados e até hoj e nega? Mirabeau subiu a serra