Navegação de Cabotagem
Moscou, 1953.
— Michel é padre de verdade, pronunciou os votos e os cum pre, é pedra do saber, fortaleza da castidade, direito com o ele só. Por Francês não boto a m ão no fogo, por Michel boto as duas e não m e queim o.
Tanta convicção m e tolhe a m alícia, declaro-m e testem unha do com portam ento sem m ácula do sacerdote: am a a vida com o pouca gente, respeita sua condição religiosa com o poucos padres. Dedico-m e ao sarapatel e à água-de-coco m as fico com o garfo no ar, boquiaberto, ao ouvir Auta Rosa declarar alto e bom som :
— Nesta casa não entra corno, sej a rico ou fam oso, nunca entrou nenhum , não adm ito.
Na seriedade de Michel, eu acredito, j unto-m e a Auta na proclam ação das virtudes do sacerdote, m as a afirm ação dos chifrudos, essa não engulo nem com o auxílio da água-de-coco verde:
— Eu bem que tenho visto entrar alguns, m as não digo nada... — contesto m as não polem izo, não sou m aluco de contradizer Auta Rosa, se deu m al quem o fez.
Com o rabo do olho m ostro-lhe o fidalgo do Recôncavo, Auta m e segreda: esse não vale, herdou os chifres da fam ília, não tem culpa. Calá com pleta, o casal é solidário na m aledicência:
— Não é que ele sej a cabrão, ela é que é dadivosa.
Aluna de história das freiras ursulinas de Ilhéus, Auta Rosa desfia a crônica do barão do açúcar: já o bisavô, fundador da casa nobre, portava galhas com dignidade, o avô foi chifrudo de renome nacional, o pai nem se fala — pai apenas por consorte da mãe, o conviva era filho do engenho vizinho. Mais do que a história dos rom antism os da fam ília dos Cornélios, interessam -m e as m anobras da baronesa: ocupa a cadeira j unto ao sacerdote, vaga com a saída de Francês que foi se servir pela terceira vez, ainda não provara a galinha de m olho pardo, pena que estej a fazendo regim e, não pode ir à carne-de-sol. Michel está em penhado na conversa sobre sincretism o com Hélio Vieira e Claudius Portugal, não repara em Maria Mel de Cana sentada em sua frente, exibe as coxas, m esm o não querendo vê-las quem não as vê? Claudius se regala, Hélio arrisca um olho, só Michel não se dá conta. Saliente, Maria Mel de Cana ronda o servo de Deus, ri, toca-lhe o braço, a perna, tem o que ouse levar os dedos à altura da braguilha, não tem tem po de ousar, Francês retorna, roga-lhe devolução da cadeira. Michel perora sobre m estiçagem , Maria Mel de Cana dá um a trégua na ofensiva.
Eu a alcanço na passagem , som os am igos, sou seu confidente, estim a m e contar os desvelos de cam a, pergunto-lhe o m otivo de tam anho assanham ento, conheço-lhe as preferências, os m enininhos dente de leite, padre Michel é cinquentão, por que, m e diga, tanto arroubo? Maria Mel de Cana baixa os olhos:
— Nunca provei rola de padre, quero saber o paladar.
De onde está, padre Michel percorre a sala com os olhos, feliz de se encontrar na Bahia, entre os am igos, sorri para um e outro, faz-m e um aceno de am izade, inocente das intenções da baronesa, sorri para ela, Maria Mel de Cana sobe aos céus:
— Está no papo.
Moscou, 1953.
O pranto
Desço do avião que nos traz de Viena, a Zélia e a m im , são cinco horas da tarde, noite fechada em Moscou, inverno rude, estam os em j aneiro de 1953, voltam os à União Soviética pela prim eira vez desde o regresso ao Brasil. Alguns am igos nos esperam no aeroporto, entre eles Vera Kutekhkova*, a anim ação em pessoa: vai nos servir de intérprete durante nossa estada.