Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 92 de 262

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Bahia, 1991.

Prêmio Camões

Escuto Miguel Torga que pronuncia o discurso, vej o na tribuna um hom em inteiro, não se lhe sente a idade, o rosto m arcado de cam ponês, a força das palavras se estende sobre a sala, prende e arrasta os ouvintes, por vezes dureza de pedra, de súbito a carícia de um a nascente de água. Estam os dom inados pelo sortilégio, esse senhor que lê um discurso escrito, sozinho na tribuna, sem outros instrum entos além das folhas de papel e a pronúncia exata, esse senhor é um m ágico em núm ero de prestidigitação, que seduz e arrebata a plateia. Assim o tem feito durante os m uitos anos de vida e de trabalho, o escritor Miguel Torga: na poesia, na ficção, na extensa e densa narrativa do Diário, esse prestidigitador da palavra escrita recriou a vida e a ilum inou. Não basta dizer que falo do escritor Miguel Torga, é im prescindível com pletar a afirm ação: o m ágico na tribuna, lendo seu discurso, é o escritor português Miguel Torga, a condição portuguesa condiciona e esclarece a obra realizada, a vida vivida.

Enquanto escuto a oração com que o m estre agradece o Prêm io Cam ões, concedido pela prim eira vez por um j úri com posto de escritores portugueses e brasileiros e atribuído, com o não podia deixar de ser, a Miguel Torga, eu m e pergunto o m otivo por que não lhe foi dado ainda o Prêm io Nobel. Pergunta cretina, talvez j á que Torga e sua literatura estão acim a dos prêm ios, sej am eles quais forem , os pequenos ou os grandes, nem sequer o cheque que por vezes os acom panha faz falta à pobreza do escritor. Um escritor que se preza não escreve para obter prêm ios e, sim , para se com unicar, dizer e refletir, considerar, com preender, recriar a vida, servir ao hom em .

De qualquer m aneira ao m e fazer a pergunta não posso deixar de constatar a indiferença, a desestim a, o descaso revelados pela Academ ia da Suécia em relação à língua portuguesa. E o faço quando penso em escritores portugueses da altura de Ferreira de Castro e Fernando Nam ora que m orreram sem o Prêm io Nobel — para citar apenas dois entre outros igualm ente m erecedores pois para que a esses dois fosse outorgado assinei petições, fiz declarações, com o aliás o fiz por Miguel Torga. Quando penso que os rom ancistas brasileiros Erico Veríssim o e Guim arães Rosa, o poeta Carlos Drum m ond de Andrade, tam pouco foram distinguidos com o Nobel concluo que realm ente nossa língua portuguesa (as diversas línguas portuguesas, a de Cam ões e a de Alencar, a de Luandino Vieira e a de Baltazar Lopes) não é levada na devida consideração pelos acadêm icos suecos. Resta-nos ainda esperar, pois o senhor que ocupa a tribuna em Ponta Delgada, nos Açores, é um rij o português, que carrega sem esforço o peso dos anos.

Bahia, 1991.

O livreiro

Na soledade da voz em desam paro, Edivaldo Boaventura* recorda Zitelm an Oliva na tribuna da Academ ia de Letras da Bahia. A em oção perpassa na sala, se estende. Na m esa, sobre o estrado, Ly gia** com o se fosse talhada em pedra, sinto a lágrim a nascer e se apagar na face de Clarinha. Atrás de m im Ró, m eu sobrinho, o rosto do pai, a saudade. Wilson Lins, na presidência da cerim ônia, está de volta ao passado, relem bra um tem po que se foi. Quase a m eu lado, Jorge Calm on fita o vazio que se povoa de lem branças. Zitelm an atravessa a sala.

*Edivaldo Boaventura, educador.

**Lygia, mulher de Zitelman Oliva.