Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 181 de 262

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Viena, 1952.

Os maus alunos

Un nègre racine d'arc-en-ciel, encontro René Depestre e sua Edith no m ato sem cachorro, em Viena, nos corredores do Congresso Mundial dos Partidários da Paz.

Mais um a vez posto fora da França, onde pousar la petite lampe haitienne, onde crier la joie de vivre?

Busco e encontro porta de saída para o poeta do Haiti, sou patriota vodu de quatro costados, leitor de Jacques Roum ain, governador do orvalho, leitor e am igo de Jacques Stephan Alexis, com père general soleil, no terreiro do Bogum assisti Oxum aré desem barcar do arco-íris vindo de Port-au-Prince em vôo rasante, sou cúm plice de René Depestre. No Mundial de Viena decidiu-se a realização de um Congresso Continental Am ericano de Cultura em Santiago do Chile, pátria de Neruda, regim e dem ocrático, pecê forte e legal, sou o responsável pela organização diante das altas esferas. Prim eira m edida, coloco René no secretariado do Congresso, representante da Am érica Central e das Antilhas, para algum a coisa vale ser haitiano, assim descolo com o m ovim ento da paz passagens para ele e Edith, de Marseille a Valparaiso: va mon nègre courir a toute bride les esperances du monde. Juntos com Neruda, Volodia Teitelboim *, Diego Rivera**, Élvio Rom ero, uns quantos m ais, fizem os o Continental, trabalham os duro, divertim o-nos a valer.

*Volodia Teitelboim, escritor chileno, secretário-geral do PC.

**Diego Rivera (1886/1957), pintor mexicano.

Do Chile, René e Edith m udam -se para o Brasil onde residem alguns anos entre Rio e São Paulo, depois o poeta prosseguirá a correr coxia m undo afora, esperanças e desesperanças. Breve tem porada no Haiti no início da dinastia Papa Doc, seu ex-parceiro de pôquer no exílio parisiense, a longa perm anência em Cuba, pátria de refugiados, entusiasm o e desencanto, j ornalism o em Moscou, os casam entos após Edith e antes de se acolher ao porto seguro de Nelly, tu es le sablier de la douceur. Não o perco de vista em sua travessia, de poem a em poem a, de narrativa em narrativa, La femme-jardin e Hadriana, reencontro-o aqui e acolá, em seu correr de brida solta até assentar a tenda de escritor no interior da França, o riso perm anece alegre e caloroso, perm anece acesa la petite lampe sur la mer. Na clandestinidade do Partido Com unista Brasileiro, nos idos de 1953, fom os colegas no Curso Stalin. De olhos vendados, várias horas de percurso, chegávam os ao local do curso clandestino, qualquer parte na zona rural, durava um m ês de lições ditadas pelos dirigentes. Mas j á estávam os os dois, René e eu, tom ados pelas dúvidas e certas proposições dos professores nos deixavam arrepiados. A nós e a Alina Paim , tam bém aluna, tam bém invadida pelo desassossego.

Lem bro-m e com o se houvesse acontecido ontem de um a aula sobre a revolução chinesa, a referência do conferencista a docum ento do pecê de Mao recom endando que os filhos denunciassem os pais, obrigação de m ilitante: vencer os sentim entos burgueses de fam ília, cum prir o dever revolucionário. Não se tratava de invenção m aoísta, novidade: na URSS haviam levantado estátua a um m enino que assim agira — espionara os pais e os denunciara, levara-os ao patíbulo, herói stalinista. O professor perora contra a m oral burguesa.

Sentado j unto a m im na prim eira fila, René m e cutuca, no outro lado da sala o olhar aflito de Atina Paim , desarvorada. Lições que não conseguim os aprender, valores que não conseguim os aceitar, com unistas inconsequentes que j á som os, incapazes de vencer as abusões, de abandonar sentim entos soezes de am or aos pais.