Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 215 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Sorrento, 1988.

— Eu acabara de te escrever um a carta, quando soube que tu vinhas, não a enviei, vou te entregar, quero que a leias.

Deixa-nos na sala, vai buscar a carta, volta, toca-nos a face, afago-lhe os cabelos, as m ãos se soltam . No hotel abro o envelope, a escrita em tinta azul recobre as folhas do papel, notícias correntias, nada especial m as na prim eira página Anna rabiscara com força, em tinta verde, na entrelinha do parágrafo: quelle solitude! Creio que som ente a m im confiou o desabafo.

Sorrento, 1988.

O coadjuvante

Meu relacionam ento com o cinem a brasileiro vem dos tem pos heróicos e, se bem em certos m om entos tenha sido bastante intenso, não m e dá direito a outro título senão o de vago coadj uvante. Não m e anim o sequer a falar em colaboração, tão anônim a foi quase sem pre m inha presença na aventura.

Para m arcar data m ais precisa devo m e reportar ao ano de 1933 quando Carm em Santos pagou-m e a quantia de três contos de réis por um a opção de dois anos para a film agem do rom ance Cacau, recém -publicado. Além de que os três contos de réis, um dinheirão na época, foram m uito bem chegados, essa proposta de film agem significou o início de m inhas relações com o cinem a brasileiro e de um a am izade que durou enquanto Carm em Santos viveu: poucas pessoas foram tão caras a m eu coração. Carm em , tão bela quanto fam osa, ainda haveria de adquirir opções sobre outros dois livros m eus, Mar Morto e ABC de Castro Alves. Não conseguiu film á-los, poucos proj etos pôde ela levar a term o entre os m uitos que concebeu e tentou realizar. Era no tem po da film agem de Favela de meus amores: Carm em Santos, produtora, proprietária dos estúdios da Brasil Vita Film e, estrela m áxim a, esquerdista, sim bolizava os anseios e os sonhos de todos nós e todos nós estávam os apaixonados por ela, ela por alguns, apenas.

Naqueles idos, no Brasil recém -chegado da Revolução de 30, a febre do cinem a se alastrava e se afirm ava, abrindo cam inhos que iam da produção das chanchadas tão brasileiras até as realizações de Limite e de Barro Humano. Mário Peixoto e Hum berto Mauro, os dois m estres daquele fascinante com eço, som ente m uitos anos depois, com o advento do Cinem a Novo, viriam a encontrar continuadores, enquanto a chanchada ainda espera que sej am retom ados o espírito nacional e a graça popular que a caracterizaram e lhe proporcionaram o im enso sucesso de público que até hoj e o cinem a brasileiro não conseguiu reeditar, m uito m enos superar.

Tem po da Atlântida e da Cinédia, de tantos nom es inesquecíveis, de tantos film es feitos na base do sacrifício, da dedicação, do am or pelo cinem a. Tem po de Moacir Fenelon, de Alinor de Azevedo, de Adhem ar Gonzaga, de Oscarito, de Zé Trindade, de Ankito, de Grande Otelo, de Gilda de Abreu, de Zezé Macedo, de Eliana e Adelaide Chiozo, de Raul Roulien, nosso hom em em Holly wood, de Ruy Santos, de Chianca de Garcia e Fernando de Barros, de Lim a Barreto e Araçary de Oliveira, de tantos e tantos outros, cito ao azar da m em ória falha, de certo esqueço nom es im portantes. Muitos j á se foram , entre eles tantos am igos m eus: ao escrever estas recordações eu os revej o anim ados de entusiasm o, vibrantes de esperança, dispostos a assentar as bases definitivas da arte e da indústria cinem atográficas no Brasil.