Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 261 de 262

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Ilhéus, 1925.

Proclam ados o talho e o retalho, o Generalíssim o deitou a bênção, cofiou a bigodeira. Assim se deu em Yalta, fui testem unha. Term inou com o se sabe. Ou não se sabe? A Crim eia é Rússia, Ucrânia ou nação independente? Quem pode assegurar de certeza certa? O tem po da certeza term inou, afirm ar sej a o que sej a, quem é louco? Acabou-se o que era doce.

Acordo estrem unhado, querendo saber que fim levou Uly sses Guim arães.

Ilhéus, 1925.

A moralista

De férias em Ilhéus Eurico e Em ílio, filhos de dona Julieta, e eu, filho de dona Eulália — Em ílio festej ara treze anos, Eurico e eu ainda não — enchem o-nos de coragem , adentram os o puteiro de Antônia Machadão (em Gabriela m udei-lhe o prenom e para Maria), o m ais renom ado da zona cacaueira. Além de nacionais vindas da Bahia, de Aracaj u, do Rio, nele exerciam um a francesa e um a polaca, profissionais civilizadas, as gringas faziam de um tudo.

Alvoroça-se o m ulherio ao ver os filhos-de-fam ília, infantes decerto cabaçudos, som os cercados, abraçados, beij ados, riem , debocham , oferecem -se para a festa do desvirginam ento. Em ílio tenta bancar o veterano, Eurico em udece, encabulado, a polaca senta-se em m eu colo. A algazarra traz Antônia Machadão à sala, foi o dia do j uízo final.

Conhecida e estim ada por todos na cidade apesar do com ércio que explorava com proveito, Antônia tivera duas filhas de xodós diferentes, adotadas um a e outra por fam ílias ilheenses, dava-se com as senhoras da sociedade, as esposas dos fregueses do castelo, nenhum a lhe negava o cum prim ento. Com m inha m ãe batia longos papos quando habitávam os na rua do Unhão, não longe da pensão alegre. Ao lado de Lalu, sentadas as duas no batente da porta, com entavam a chuva e o bom tem po, a previsão da safra e o preço do cacau. Na região grapiúna onde ainda se m orria e se m atava pela posse da terra, as distinções sociais não ditavam os costum es.

Ao nos ver nos braços das raparigas, em vias de escolher parceira, ir para a vida na cam a, Antônia Machadão virou fera:

— Fora, fora daqui, seus m oleques descarados, fora agora m esm o. Que haveriam de dizer dona Julieta e dona Eulália se soubessem que perm iti que seus m eninos frequentem casa de m ulher-dam a. Fora daqui!

Expulsos, hum ilhados, o galanteio das putas se transform a em vaia, saím os rua afora rabo entre as pernas: Antônia Machadão, cafetina, zelava pela m oral na cidade de Ilhéus.

Buquim, Sergipe, 1936.

As duas casas

Meu pai vem passar uns dias com igo em Estância: sucos de graviola, caj u, caj á, de m anga e um bu, alm oços m onum entais em casa de parentes, banhos de rio na bacia das moças. Em sua cidade natal o coronel do cacau rej uvenesce. As três irm ãs surgem , curiosas, querendo conhecê-lo, afoitas voltej am em torno do velho João Am ado. Velho? Anda pelos cinquenta e cinco anos, com a m ão alisa os bigodes negros, aj eita as m echas da cabeleira, os olhos brilham . Mede as m oças, cada qual m ais form osa, passa a língua pelos lábios: sinto m eu harém am eaçado.

Meu pai leva-m e a Buquim em visita à sua irm ã m ais velha, m inha tia Yay á. Meu avô José Am ado de Faria faturou 21 filhos, 18 do prim eiro m atrim ônio, 3 do segundo. Yay á, prim ogênita, com pletara 84 anos e seu m arido José era um ano m ais velho.

Casa am pla de com erciante rico, na praça central de Buquim , a sala de visitas é aberta aos visitantes, os m óveis caros e pesados são despidos das coberturas que os resguardam , a ocorrência é solene: visita de irm ão fazendeiro de cacau em Ilhéus, de sobrinho escritor de nom e nos j ornais. Conversam os durante o alm oço grandioso, oito pratos, peixes, cam arões, pitus, galinha — a galinha de parida de m inha tia Yay á, falada até em Aracaj u —, carne de boi e de porco, feij ão, branco e m ulatinho, arroz, farofa, abóbora, fruta-pão, j iló, m axixe, chuchu, batata-doce, aipim , inham e, banana-da-terra e por aí afora, um desparram e.

Na m esa, além do casal — m inha tia Yay á é m onum ental, buço forte sobre o lábio, quase um bigode, usa óculos, enrola o cabelo num coque alvo de algodão, ar de senhora grada, m eu tio José é um caboclo de m uitos sangues m isturados, o rosto aberto, as m ãos poderosas, a grenha e os bigodes brancos, o cigarro de palha, o riso fácil —, além deles a filha viúva, a filha solteirona e o filho m ais m oço, Antônio, único varão, terá seus cinquenta anos, por aí, bigodudo com o o pai de quem herdou as feições m orenas e o riso cordial. Antônio, acanhado, conta-m e que leu Jubiabá e Mar Morto, tece elogios. Três filhas m orreram num surto de bexiga e m inha tia abortou de gêm eos. Aprendo histórias da bexiga negra que, em m ais de um a ocasião, lavrou em Buquim sua lavra de m orte.

Após o alm oço tio José, lépido apesar dos 85 anos de labuta, tom a do chapéu e da bengala e nos convida a dar um a volta. Volta que nos leva à casa militar, num a rua de canto, residência tão am pla quanto a da casa civil e ainda m ais agradável, pois fica no centro de vasto terreno plantado de m angueiras, caj ueiros, abacateiros, um buzeiros, caj azeiras, pés de pinha, graviola e fruta-pão, m angabeiras, um a roça de pitangas, além do agreste j ardim de flores tropicais.

Tio José nos apresenta a Rosa, m ulata bem fornida de carnes, risonha, a bunda vistosa em pinando a saia, form osura doce e sensual: hoj e j á não se fazem dessas m ulatas de antes, gordas e belas, são m agras e xexelentas. Na carapinha bem cuidada um a flor do cam po, colares e pulseiras de ouro, os dentes de m order, adm iráveis, os olhos lânguidos, Rosa nascida para a cam a. Várias crianças vêm correndo da casa e do pom ar tom ar a bênção ao pai, a m ais velha andará pelos quinze anos, a m ais m oça, de m eses, dorm e no colo da am a-de-leite.

Redes brancas nas varandas, para a sesta. No com ando de um batalhão de m ucam as Rosa serve doces e com potas incom paráveis: doce de banana de rodinha, de j aca, de caj u, de batata-doce, de abacaxi, de lim ão inteiro e descascado, cada qual m ais divino. Que dizer do requeij ão que os acom panha, a m anteiga escorrendo? O café fum ega nos bules esm altados.

Os olhos cúpidos do coronel João Am ado dem oram nas ancas de Rosa, nos seios que se revelam no decote da bata branca. Tam bém m eus olhos se perdem naquelas form osuras.

Rosa sentada atrás da rede onde tio José descansa pitando seu cigarro de palha, faz-lhe cafuné, carinhosa, arrulha no riso de dentes brancos. No calor da tarde a brisa convida ao cochilo, o tem po passa.

Vam os regressar à casa civil, à m aj estade da tia Yay á, no portão da casa militar, ao deixarm os a m ansidão de Rosa, m eu pai aponta o bando de crianças que corre entre as árvores, os filhos da am ásia:

— São todos seus, José?