Navegação de Cabotagem
Praga, 1951.
Sibelius
Em m eio à m assa de notícias, artigos, reportagens, docum entos, o in m em oriam im ediato à m orte de Alberto Moravia, m estre rom ancista, com panheiro cordial, encontro curiosa referência a m eu nom e.
Em crônica nas páginas de La Repubblica, um colaborador do j ornal com enta indignado a inj ustiça de Moravia falecer sem ter recebido o Prêm io Nobel, revela que assim aconteceu devido à oposição tenaz do acadêm ico sueco Arthur Lundqvist* ao nom e do autor de La Romana. Lundqvist, um dos cinco membros da Academia que escolhem a cada ano o Nobel de literatura, esclarece o articulista. Acrescenta: o mesmo Lundqvist que impediu que o Nobel fosse concedido a Kazantzakis e se opõe ao nome do brasileiro Jorge Amado. Meu nom e, hein! Falado para o Nobel, discutido, navego em m ar de rosas, a citação deixa-m e regalado m esm o se os suecos m e passam para trás: nunca m e im aginei candidato ao Nobel.
*Nils Arthur Lundqvist, poeta sueco.
Quando do assunto que aqui passo a relatar, m eu com padre Pablo Neruda, de quem Lundqvist era am igo, traduzira poem as do Canto General para o sueco, m e inform ou: Arthur está furioso contigo, não engoliu o veto a Sibelius**, eu tentei convencê-lo que não tinhas culpa, mas ele não quis me ouvir. Anos depois outro com padre m eu, Miguel Angel Asturias, aliás Prêm io Nobel, de volta de conferências em Estocolm o, m e perguntou em Paris diante de um assado de j avali digno de qualquer prêm io: que história é essa do prêmio a Sibelius que sabotaste, compadre? Lundqvist tomou raiva de ti, te detesta. Lim po o m olho de j avali que m e escorre pelo queixo, digo a Miguel não faltar razão ao ensaísta escandinavo: vou te contar o sucedido, com padrito.
*Jean Sibelius (1865/1957), compositor finlandês.
Na m esm a oportunidade da fundação, em 1949, do Conselho Mundial da Paz, instituiu-se o Prêm io Mundial da Paz com um a dotação em dinheiro de quinze m il dólares (pagos pelos soviéticos), a ser distribuído anualm ente a três personalidades da literatura, das artes plásticas, da ciência, do cinem a, da m úsica. Os prem iados seriam escolhidos por um j úri internacional integrado por dirigentes do m ovim ento da paz.
Mem bros do Júri, som os escolhidos Pierre Cot* e eu para os postos de Presidente e de Secretário. Na m inha qualidade de secretário, coordeno as candidaturas à láurea e aos dólares, levo os dossiês aos dem ais com ponentes do j úri, inform o ao m esm o tem po os caciques soviéticos que m anej am as rédeas do Conselho, não escondo que, devido ao cargo, eu detinha certo poder de m anobra e decisão, respeitados os lim ites políticos. Entre os m em bros do j úri contava-se o acadêm ico sueco Arthur Lundqvist, representante dos partidários da paz escandinavos.
*Pierre Cot (1895/ 1977), político francês.
Lem bro aqui, para inform ar sobre a im portância do Prêm io Mundial da Paz, algum as das figuras que o receberam : Picasso, Charles Chaplin, o poeta turco Nazim Hikm et, o rom ancista islandês (depois Prêm io Nobel) Halldor Laxness, Joris Ivens, Wanda Wachlewska, Rafael Alberti, Chostakovitch, Leopoldo Mendez, Chi-Pai-Shei, a cineasta polaca Wanda Jacubowska, um brasileiro: Josué de Castro.
Apresentado por Lundqvist, constava da relação inicial de candidatos, naquele ano de 1951, o nom e do com positor Sibelius. Antes m esm o que a relação se tornasse oficial, fui cham ado às talas por Alexander Korneichuk, dram aturgo — assisti em Moscou a um a única peça de sua autoria, chinfrim —, vice-presidente da Ucrânia, m em bro do Com itê Central do Partido Com unista da União Soviética. Fora das funções oficiais e da responsabilidade Partidária era conviva am ável, dado às m ulheres e à bebida, o lado m ais sim pático do personagem . Em 1952, no Congresso Mundial de Viena, apresentei-o a Maria delia Costa, a atriz participava da delegação brasileira, Korneichuk deslum brou-se, perdeu a cabeça.
Ao convocar-m e não estava deslum brado, estava categórico, colocou o dedo em cim a do nom e de Sibelius na lista dos possíveis candidatos, disse: esse jamais! Com positor fam oso, ardente patriota, Sibelius com pusera canções e hinos de exaltação a seus com patriotas que com parcos recursos se batiam contra os exércitos soviéticos na guerra russo-finlandesa de 1939: Sibelius estava no índex, a URSS queria vê-lo m orto e enterrado. Korneichuk, casado com a rom ancista Wanda Wachlewska, de origem polaca, cidadã soviética, conselheira de Stalin, feia e severa: m algré tout ça pessoa de bom trato, éram os am igos, por ela o dirigente soubera da candidatura do com positor antes que eu lhe desse conhecim ento da lista. Os prêm ios não eram decididos sem a aprovação dos soviéticos.
Inform ei Korneichuk da posição de Pierre Cot, sim pático à candidatura de Sibelius, ele não se com oveu: diga a Cot que esse jamais, se ele quiser venha falar comigo. Pierre Cot, em inente político francês, deputado, ex-m inistro da Aviação, um dos aliados m ais considerados do Partido Com unista da França, personalidade forte, subiu nas fum aças ao receber o recado de Korneichuk, esbravej ou, anotou im portância e brios. Afinal quem decide de prêmios e premiados? O júri internacional ou o pecê da URSS? Vou lhe dizer as últimas, confiou-m e, ao partir para o encontro com o vice-presidente da Ucrânia, adm irei-lhe a integridade e a coragem , o estofo de herói.
Regressou m anso, em com panhia de Frédéric Joliot-Curie, presidente do Conselho Mundial, grande cientista, Prêm io Nobel, com unista convicto. Decerto Frédéric aj udara Pierre Cot a engolir o sapo, um sapo cururu: o nom e de Sibelius foi riscado da lista. Quem não engoliu o sapo, não lhe atravessou na garganta, foi Lundqvist, ficou safado da vida, largou o j úri e o m ovim ento da paz, recolheu-se à sua Academ ia da Suécia. Não sei se brigou com Korneichuk e com Pierre Cot, duvido. Levei a culpa, algum a tive, não fui contudo o autor do crim e, não passei de m ero cúm plice. Carreguei com a culpa inteira, o que m e aconteceu repetidas vezes, devo a circunstâncias com o essa alguns de m eus m ais sinceros e contum azes desafetos.
Se Arthur Lundqvist se opõe a m eu nom e nas discussões do Nobel devido ao fracasso da candidatura de Sibelius, não lhe tiro razão. Se porém m e nega pão e água por lhe parecer de baixa extração os rom ances que escrevo, a razão lhe sobra. Não escrevo para ganhar prêm ios, outros m otivos m e inspiram e m e ordenam , não receber o Nobel não m e aflige, nunca pensei m erecê-lo, conheço m eus lim ites m elhor que qualquer dos críticos que desancam m eus livros. Ao dem ais opino ser um infeliz o escritor que trabalha e cria em função de prêm ios e honrarias, m esm o quando o prêm io é porreta, a grana supim pa e o candidato a candidato é m erecedor: se rebaixa, faz-se pequeno, desm erece a sua criação.