Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 243 de 262

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Rio de Janeiro, 1970.

Do vinho não perdeu o gosto nem o requinte. Em 1979, Zélia e eu viaj am os aos Estados Unidos para estar com Alfred no dia de seus noventa anos vividos entre livros e am igos, ele convocara os diletos, os do peito, Helen nos quis em Purchase onde seria a festa, lá passam os a sem ana. Alfred escolheu os brancos e os tintos a servir na data das noventa prim averas e ele próprio os serviu aos convidados, após tê-los degustado, conservar inteiro o gosto do vinho, fechava os olhos para saborear.

Rio de Janeiro, 1970.

O almirante

Sessão solene na Academ ia* ostentam os o fardão, cai bem em Silva Melo, alto e m agro, em Afonsinho*, aristocratas m ineiros, nasceram para envergar fardão, em Alceu* e Barbosa Lim a* que o usam com o casaca, à m oda de Joaquim Nabuco, em outros não vai tão bem , fico parecendo m oço-de-recados em casa rica. Afrânio Coutinho lem bra um conde dublê de Alm irante da Marinha de Guerra, elegantérrim o.

*Academia Brasileira de Letras.

*Afonso Arinos de Mello Franco, escritor e político.

*Alceu Amoroso Lima, escritor.

*Barbosa Lima Sobrinho, jornalista e político.

Catedrático da Universidade Federal, na ocasião Afrânio era Diretor da Faculdade de Filosofia que funcionava em prédio construído pela Inglaterra, pavilhão britânico na Feira Internacional, com em orativa do centenário da Independência do Brasil, em 1922, vizinho do Petit Trianon, pavilhão da França, doado à Academ ia. Estava Afrânio em galanteria, exibindo o fardão e a sabença à assistência fem inina em roda de conversa antes da abertura da sessão, quando o vêm buscar às pressas pois ocorriam violências no recinto de sua Faculdade.

Os estudantes contestavam a ditadura, faziam -no com veem ência e valentia, a ditadura reagia com ferocidade, patrulha do Exército, com andada por subtenente na arrogância de ordens superiores, acabara de invadir a sede da Faculdade de Filosofia com o obj etivo de prender alguns contestatários. Responsável pelo local e pelos rapazes, Afrânio não vacilou, pediu licença às senhoras e aos colegas, dirigiu-se ao prédio vizinho disposto a garantir as instalações da Faculdade e os direitos dos alunos. Im ponente no fardão, um a das m ãos no punho da espada, na outra o tricórnio de Napoleão.

O espetáculo que lhe foi dado ver encheu-lhe o peito de indignação: soldados agrediam os rapazes, arrastavam dois deles, tentavam em barcá-los na viatura m ilitar para a tortura nos quartéis. Afrânio irrom peu aos gritos, quando se deu conta brandia a espada, fúria desatada. Ao vê-lo e ouvi-lo, os facínoras soltaram os estudantes, recuaram , partiram , o subtenente baixou a crista, bateu continência ao Alm irante, não era General m as equivalia.

A façanha custou processo m ilitar, Afrânio escapou por pouco de condenação e xilindró, acusado de ter se apropriado de farda de Alm irante da Marinha e de tê-la usado para interrom per, im pedir a ação das autoridades na m anutenção da ordem : trampolineiro e farsante, subversivo, para tudo dizer um terrorista.

Praia do G uincho, 1980.