Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 227 de 262

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Goiânia, 1954.

Dei m eu aviso a Matilde depois de term os exam inado j untos cada parágrafo, estudado as frases um a a um a, pesado as palavras. De Barcelona, Carm en Balcells telefonava dando pressa no envio dos originais, discutia sobre o possível editor francês. Matilde decidiu por Gallim ard, Pablo não aceitaria outro. Ao desem barcar tínham os com binado que a im prensa não saberia de sua estada m as, na véspera da partida, fiz vir ao Rio Verm elho nossa am iga July * a quem Matilde concedeu um a entrevista a ser publicada quando ela j á estivesse em Santiago.

*Julieta Isensée, jornalista.

Após a partida de Matilde e antes que A Tarde divulgasse a entrevista, a policia federal apareceu-m e em casa, nas figuras de um principal e dois subalternos, deixei-os de pé, perguntei a que vinham . Queriam apenas confirm ar se a senhora Urrutia, que fora por um a sem ana nossa hóspede, era de fato a viúva de Pablo Neruda de cuj a estada na cidade estavam a par, respondi que sim , ela m esm a. Desej avam deixar claro, penso eu, que sabiam da presença de Matilde, não eram incom petentes, não a tinham incom odado porque assim m elhor lhes parecera. Tendo dado o recado, foram -se em bora.

G oiânia, 1954.

O mapa da África

Anda relegada ao esquecim ento um a das figuras políticas m ais singulares de nosso tem po, refiro-m e a Gabriel d'Arboussier, do am igo tenho saudades todos os dias. Em Gabriel harm onizavam -se a erudição francesa e a vitalidade africana para dar corpo e alm a a um a personalidade que exerceu enorm e fascínio sobre a inteligência negra no após-guerra — não falo no fascínio que levava as m ulheres a fazer fila ao pé de seu leito. Pergunto-m e que fim teriam levado o m apa da África traçado por Gabriel e o m anuscrito de suas m em órias.

Deputado pelo Senegal à Assem bleia das Nações Francesas, seu Vice-Presidente, secretário-geral do Movim ento Dem ocrático Africano, o partido da independência da África Ocidental Francesa, m em bro do Bureau do Conselho Mundial da Paz, orador excepcional, Gabriel em certo m om ento teve dificuldades com o Partido Com unista da França, o pecê defendeu tese de difícil aceitação pelos líderes africanos: j á que os com unistas iam em palm ar o poder na França a luta pela independência não só perdia a razão de ser, passava a significar retrocesso político, pois, com os com unas no Palais de l'Ely sée, as colônias iriam beneficiar-se das vantagens do socialism o, das benesses. Gabriel protestou, classificou a tese de colonialista, suas relações com Thorez e Casanova* deterioram -se. O pecê colocou-o no lim bo e por vias travessas buscou elim iná-lo da vida política. Gabriel, atazanado, m acam búzio, vivia um m au quarto de hora, dei-lhe a m ão, convidei-o a vir ao Brasil para o Congresso Nacional de Intelectuais reunido em Goiânia em 1954 sob a égide do pecê brasileiro — o rom ancista Miécio Tati foi o secretário-geral do evento, eu era o capa-negra do Partido, ditava as ordens.

*Laurent Casanova, membro do bureau político, responsável pelo movimento da paz e pela cultura.

Em Goiânia, conversando sobre o futuro da África, Gabriel m e falou de seu proj eto de um m apa para o continente negro após a independência, ele o vinha elaborando, m ostrou-m e o trabalho j á feito, as grandes linhas. A ideia era realm ente revolucionária e, por isso m esm o, enterraram -na, quando a independência das colônias africanas aconteceu o m apa de Gabriel sum ira, perdeu-se o rastro da proposta, nunca m ais ouvi m enção. Ousada e sim ples, a proposição partia de consideração indiscutível: a independência, no quadro das fronteiras colonialistas, não passaria de um ato falho, o dom ínio das m etrópoles se m anteria inteiro, aproveitando-se das dissensões e lutas entre as etnias que com punham cada um a das colônias. Gabriel propunha o traçado de novas fronteiras que passassem pela realidade racial e social das etnias para a com posição de estados com unidade, capazes de vida dem ocrática e progresso econôm ico. Dedicou-se de corpo e alm a, com a colaboração dos j ovens da negritude que viam nele o líder sem outro com prom isso além da África.

A independência se deu conservando a velha carta geográfica dos colonialistas — os de direita e os de esquerda —, com o Gabriel previra não houve vida dem ocrática nem progresso econôm ico, persistiu a m ão de ferro da exploração colonial, os novos Estados viram -se envolvidos na luta fratricida entre as diversas etnias, basta lem brar Biafra. Na quase totalidade dos países foram estabelecidas ditaduras m onstruosas, vigorou a lei do partido único — de direita ou de esquerda, iguaizinhos —, a África virou o que se sabe e vê, realidade além de todos os lim ites do negativo, o quarto m undo. Os governantes da negritude conseguiram o que o pecê francês não tinha conseguido: elim inar d'Arboussier da vida política. Ministro da Justiça do Senegal no governo Senghor, term inou a vida com o em baixador. Onde andará o m apa?

Em 1966 Gabriel era vice-secretário-geral das Nações Unidas, veio ao Brasil para um a conferência antiapartheid reunida em Brasília. Foi passar o fim de sem ana conosco na Bahia, m atar saudades, m ais um a vez nós o escutam os rir, m ais um a vez discutim os os destinos do m undo, os do Brasil sob a opressão dos m ilitares, os da África, as ditaduras que ele tem era, previra, anunciara. Foi nessa ocasião que m e deu a ler o m anuscrito da prim eira parte do livro de m em órias em cuj a redação labutava.

Dos am ores de general francês — com andante das tropas da m etrópole, governador geral da África Ocidental — com negra de beleza proclam ada nasceram dois filhos, Gabriel e um a m enina, foram educados na França, sob os cuidados de um a irm ã do General, bom pai dos filhos africanos, negros. A m enina tornou-se freira, abadessa de convento na Córsega, Gabriel form ou-se em direito, enveredou pela política, na luta pela independência nenhum líder desem penhou papel m ais relevante do que ele.

Não sei se chegou a concluir o livro de m em órias. A prim eira parte ocupava exatas noventa páginas a m áquina, ele não aceitou m inha sugestão de publicá-las num prim eiro tom o, queria o livro com pleto: a vida política, a luta no parlam ento, na im prensa, j unto às grandes m assas da África, a colaboração com De Gaulle para a independência da Argélia, a paixão da liberdade, do respeito aos direitos hum anos, a batalha pela dem ocracia. Com pleto, seria um livro que levaria à reflexão, um ato político im portante. A prim eira parte era apenas a infância, o m enino africano.

A leitura do texto dessas m em órias de infância apaixonou-m e. A casa do com andante, do governador-geral, rica e prim itiva, onde tigres andavam soltos e soltos voavam pássaros, a figura da m ãe, a doçura e a força, o tio feiticeiro na intim idade dos orixás, um a atm osfera entre a realidade e o sonho, a cultura europeia e a africana, a m istura, o sincretism o, a m estiçagem , a poesia. Atm osfera sem elhante eu viria a encontrar, m uitos anos depois, em rom ance de Henri Lopes, Le Chercheur d'Afrique.