Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 232 de 262

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Paris, 1948.

— Em português? Não acredito, não entendi um a única Palavra.

Nem ele, nem eu, prefiro o fado tradicional, o de Am ália de Herm ínia e Carlos do Carm o.

Paris, 1948.

Hotel Saint-Michel

Um único desentendim ento não chegou a em panar as relações de estim a que até hoj e m antenho com Madam e Salvage*, ela m e adotou assim m e conheceu.

*Madeleine Salvage, proprietária do hotel.

O choque de personalidades se deu quando recém -chegado a Paris descobri que o único quarto de banho existente nos seis andares do hotel** estava transform ado em depósito de bagagens. Am eacei partir, ela concordou em colocar a sala de banho em funcionam ento, Madeleine am ava a literatura e Carlitos*** lhe havia oferecido um exem plar de Terre Violente****, constatou-m e escritor, pensou-m e im portante. Mesm o assim , o problem a brasileiro do banho diário não se resolveu por com pleto: Madeleine controlava o aquecedor, no m elhor da festa, o corpo coberto de sabão, a água quente sum ia da torneira.

**Grand Hotel, Saint-Michel, 19, rue Cujas, Paris 5ème.

***O pintor Carlos Scliar.

****Titulo da primeira tradução francesa de Terras do Sem Fim .

O Grand Hotel Saint-Michel foi reduto de com unas latino-am ericanos e lusos, literatos e artistas de preferência, seria longa a lista de nom es a citar, creio que Nicolás Guillén e Justino Martins, por m ulherengos, a cada noite m ulher nova a galgar as escadas, eram os preferidos da proprietária: as belas enfrentavam as escadas, não havia elevador. Nicolás convidou-a a visitar Cuba após a vitória dos barbudos, ela adorou a ilha e o povo com um a única restrição: o discurso de Fidel, durou seis horas, dose para elefante, nem assim Madeleine se dessolidarizou da revolução cubana.

Inconstante o hum or de Madam e Salvage, gritava com os hóspedes se atrasavam no pagam ento, am eaçava despej o, parecia que o m undo vinha abaixo, não vinha, nunca pôs ninguém na rua, era tudo da boca para fora, Madeleine possui um coração de m el. Certa feita ouvindo-a insultar cliente de aluguel vencido, perguntei-lhe por que tanto azedum e, respondeu-m e que naquele dia ainda não recebera sua dose de esperm atozóides. Paixão de fazer chorar só lhe conheci um a, pelo escritor uruguaio Francisco Spínola, habitou o Saint-Michel durante anos pagando a conta em espécie, Madeleine louvava-lhe o tam anho e o vigor da arm a de com bate.

Quando, após dezesseis anos proibidos de entrar na França, Zélia e eu retornam os a Paris, ela nos recebeu aos beij os e nos hospedou de graça, fez questão de não cobrar, prova definitiva de am izade. De passagem em Paris vam os visitá-la, o hotel floresce, ducha em cada quarto, elevador, Madeleine arrasta Zélia de andar em andar, exibe as instalações, invade os quartos sem anúncio prévio, Zélia bateu os olhos num casal em plena ação. Num a das vezes em que vim cum prim entá-la dei-lhe notícias de Roberto Gusm ão, j ovem com una com m andato da UNE* no estrangeiro, habitara no Saint-Michel:

*União Nacional dos Estudantes.

— Se lem bra do Gusm ão? Pois é Ministro do Com ércio, sabe?

— Ora, Ministro... Mário Soares é Presidente da República, não passa por Paris sem vir m e visitar.