Navegação de Cabotagem
Évora, 1987.
Dias de m edo, m alditos, desgraçados, prolongam -se em sem anas e m eses infelizes. As dúvidas crescem , não devem os duvidar, não querem os duvidar, querem os continuar com a crença intacta, a certeza, o ideal. Nas noites insones, nos contem plam os, Zélia e eu, um nó na garganta, vontade de chorar.
Évora, 1987.
Preferência
Leitora de Évora, am ável e exaltada com o sabem ser as portuguesas, cobra-m e em carta opinião sobre Fernando Pessoa. Todos falam sobre Pessoa, o maior entre os maiores, não ouço sua voz no coro dos encômios. Que motivo deter-mina esse silêncio estranho? Diga-me o que acha da poesia dele, por favor.
Poeta extraordinário, im enso poeta, quem pode negar a grandeza de Fernando Pessoa? Não eu, certam ente. Mas por que, cara Manuela Miranda Mendes, classificá-lo, categórica, o maior entre os maiores? Mania m ais intolerante essa do m aior e do m elhor de todos que nós brasileiros herdam os de vocês, portugas. Onde fica o caolho Cam ões, aquele que, no dizer do povo da Bahia, vê m ais com um olho só do que nós com os nossos três? O dos Lusíadas ou o dos Sonetos, conform e o gosto do leitor, para m eu gosto o dos Sonetos.
Poeta im enso, ninguém duvida, m as Pessoa não é o m eu poeta português: pondo de parte os citados sonetos de Cam ões hors-concours, m eu poeta lusitano é Cesário Verde, enche-m e as m edidas.
E entre os vivos. Curiosa e provocadora você quer saber e cita três nom es ilustres de poetas verdadeiros. Desculpe-m e, Manuela, m eu poeta português vivo não é nenhum dos três de sua preferência, o de m inha predileção, cuj a poesia singular m e faz pensar e m e com ove, cham a-se Fernando Assis Pacheco, labuta na redação de O Jornal para ganhar o pão e o vinho quotidianos, descansa no regaço da senhora Rosarinho, é pai de m oças lindas, em geral arquitetas, e do doutor João Pacheco, j ovem erudito. No dia em que Fernando reunir em volum e sua poesia im pura, você, Manuela Miranda Mendes, na Universidade de Évora ou em praça pública vai proclam á-lo o m aioral.
Ouça e m e diga se não tenho razão: uma parte da vida é o que somos/outra parte o que para nós inventam.
Bahia, 1928. O candidato
Nas páginas de um livro de andanças e lem branças do rom ancista Herberto Salles, deparo com o louvor do contista Dias da Costa, m eu com padre Oswaldo, em tantas circunstâncias m eu irm ão. Quando m enos espero, eis que vem fazer-m e com panhia.
Dos Estados Unidos, um desses pesquisadores universitários que dedicam a vida a estudar determ inado assunto ou determ inado aspecto de um assunto e o estudam em profundidade, até a exaustão, são incríveis de tão devotados, m ister William Rouele que se especializou em "literaturas de língua portuguesa na Rússia tzarista e na União Soviética", m e rem ete a relação com pleta até a data, dos autores brasileiros traduzidos nas diversas línguas da URSS: ali está a Canção do beco, de Dias da Costa, em versão para o ucraniano. Não posso lhe dar sequer a surpresa da notícia, Oswaldo se foi de viagem para sem pre, sem saber que possuía leitores em Kiev. Contista da adm iração de Graciliano Ram os e de Sérgio Milliet, ainda no m ês passado Claude Couffon*, que sabe tudo sobre as literaturas de línguas espanhola e portuguesa, poeta e ensaísta, Prix National de la Traduction, m e falou sobre o conto de Oswaldo, Alucinação, pensa colocá-lo num a antologia: obra-prim a de hum or, assinala.
*Claude Couffon, escritor francês, hispanista.
Em plena organização da Academ ia dos Rebeldes e às vésperas do lançam ento da revista literária Meridiano, que, é claro, iria revolucionar a literatura nacional, aparece-nos, na sede da Academ ia em em brião, segunda m esa à esquerda no Bar Brunsuwik, atrás da Praça Municipal, um j ovem desem pregado, m agro, baixo, elegante, sim pático, propõe-se a coletar anúncios para a futura revista nas cidades do recôncavo para onde tenciona viaj ar no rastro de xoxota andej a.
Tom ou lugar à m esa, entrou direto na conversa m aligna, de sotaque, e que sotaque tinha o baixinho! Ao se despedir, no fim da tarde, voltaria no dia seguinte pela resposta, quisem os saber a opinião de Pinheiro Viegas:
— Para literato, ótim o, para agenciador de anúncios, nulo.
Sem os anúncios de Oswaldo, m as com um artigo seu, virulenta pasquinada contra o parnasianism o, a revista Meridiano circulou, prim eiro e único núm ero. Não revolucionou a literatura nacional, m as fez um barulho danado nos currais baianos da subliteratura, entre os grupos do Arco & Flexa, do Samba e os avulsos, em penhados todos em guerra Mundial contra o academ icism o e a se entredevorarem na guerrilha urbana das inj úrias, dos doestos, dos xingam entos, a baixaria m odernista.
Ninguém tão terno am igo, devorador de rom ances igual a m im , j ogador de canastra e de buraco, num tem po antigo boêm io debochado nas ruas da Bahia: acontecia passarm os, Oswaldo e eu, um a sem ana inteira hospedados em pensão de putas, nossas nam oradas, xodós com o se dizia.
Para mim meus romances só existem enquanto os escrevo, ao colocar a palavra fim ao pé da página, o romance que me consumiu o juízo e me comeu as carnes deixa de existir — não é bem isso: continua a existir, mas já não é meu. Passa a pertencer aos outros: editores críticos, tradutores, leitores, aos leitores sobretudo. Meu, exclusivamente meu, somente durante o tempo dos dedos no teclado da máquina de escrever na busca dos caminhos da narrativa, quando concebo e levanto ambientes e personagens, pouco a pouco os desentranho da cabeça, do coração, dos culhas e os vejo vivos no papel, chorando e rindo — duro, difícil, emocionante ofício o de escritor, Há quem diga que o faço bem, há quem diga que o faço mal, eu o faço o melhor que posso, não busco outra ocupação, pois não sei fazer mais nada.
Não tenho o hábito de reler meus livros, raras vezes uma página aqui outra acolá por casual necessidade. Não os releio nem os reescrevo como fazem diversos literatos. O livro a meu ver tem data — na concepção, na escrita, no conteúdo, na criação artística e humana —, data que corresponde à personalidade do autor quando o elaborou e escreveu. Delimita a experiência adquirida até então, a posição perante o mundo e a vida, a maneira de ver e de pensar, os ideais, a ideologia, as limitações, as aspirações, designa um homem em tempo e circunstância que já não se repetirão. Se reescrevo o livro serão outros o tempo e a circunstância, também o livro já não será o mesmo, ainda que melhore a escrita, a composição da história, a condição dos personagens, ao reescrevê-lo eu o perdi, ao burilá-lo eu o reneguei.