Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 214 de 262

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Berlim, 1982.

Respondo à leitora, esclareço: nada sei sobre o ipsilone não tendo tido a glória do leito de Tieta, nas conversas de am igo, se bem livres, m arcadas pela franqueza, ela nunca m e dera detalhes a respeito, apenas se referira ao deleite, ai que deleite quando executava o ipsilone, prendia para sem pre escravo o beneficiário, o felizardo. Do ipsilone eu sabia apenas que Tieta o praticava, o rom ancista sabe um a porção do acontecido, não o todo.

Mistério da criação, os absurdos do ofício do rom ance, os im previsíveis segredos dos personagens: por volta de 1938, descíam os o elevador da redação de Diretrizes, Sam uel Wainer de repente m e interpelou:

— Tem um a coisa que desej o te perguntar desde que li Mar Morto: por que diabo o velho Francisco não quis receber o irm ão que apareceu depois de tantos anos, por que o expulsou, não está no livro. Por que foi, m e diga.

— Não sei. O velho Francisco não m e disse a razão, devia ser grave, tam bém eu gostaria de saber.

A espanhola repim pona m e estende o exem plar de Tieta para a dedicatória, eu lhe pergunto: y el y picilone, y a lo sabe? Encontró quien lo ensenara a praticarlo? — Todavia no, pero inventé el doblevê, es la sensación de España. Recorda-m e o nom e para a dedicatória, não o reproduzo aqui por discrição. Tam pouco ela, na confusão dos leitores em busca de autógrafo, m e revelou com o era o doblevô, por espanhol o im agino dram ático, com certa crueldade católica.

Berlim, 1982.

Quelle solitude!

Em seu apartam ento de Berlim Leste, Anna nos cerca, nos acarinha, nos envolve em am or: tom a de nossas m ãos, nos obriga a com er, a m esa cheia de gulodices, um desvario de alegria, tam bém Zélia e eu estam os no lim ite da em oção.

Anna com pletou oitenta anos, na Alem anha do Leste saudaram -na com o sím bolo da literatura a serviço da classe operária, festej aram sobretudo a com unista de crença inabalável no Partido: a escritora, apesar da fidelidade com provada da m ilitante, não m erece irrestrita confiança, é grande dem ais para ser escriba oficial. Anna passa a m ão em nossas faces, nas de Zélia, nas m inhas, olha-nos e ri, sabe que viem os apenas para vê-la, a m ais ninguém , a nada m ais. Risos e lágrim as m isturados, atropelam os as palavras, dem oram os em silêncio, tantos m ortos vivem em nossos corações, falam os de Ily a, de Pablo, estão aqui conosco.

Nicole Zand* — os que têm interesse pela literatura sabem de quem falo, em sua rubrica Des Autres Mondes, em Le Monde, esbanj a conhecim ento, ressum a com preensão, transborda de interesse pelas letras dos países distantes e deserdados —, Nicole dá-nos conta da conversa que m anteve em 1991 com Pierre Radvany i, o filho de Anna, depoim ento lancinante sobre os anos da guerra, o exílio, a viagem sem porto de destino. Pierre explica o com portam ento político da autora de Transit, a fidelidade sem lim ites: elle se sentait une sorte d'obligation morale de ne pas se déjuger. Julgar é fácil, difícil é com preender.

*Nicole Zand, jornalista.

Naquele dia, em Berlim , Anna recusou-se a falar de literatura e de política, o tem po era curto para a festa da am izade. Recordou o Brasil, suas estâncias no Rio e na Bahia, a viagem de carro pelo interior, o faquir de Jequié, a inauguração do café no Largo do Machado, a casa do Rio Verm elho, o j ardim onde escreveu, as crianças em seu derredor. Dia de exaltação, dia de am or, encontro de irm ãos que não se viam há tanto tem po, sabiam que não se veriam m ais. Quando chegou a hora do adeus, ela m e disse: