Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 248 de 262

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Paris, 1989.

As televisões nacionais, as estações de rádio, os fotógrafos dos j ornais, a prom oção au grand com plet, a festa vista e ouvida no país inteiro, m ostrada ao vivo. Toninho cochicha ao m eu ouvido:

— Você, Cary bé e eu vam os suspender o sofá com Menininha, elevá-la no ar, m ostrá-la ao povo...

Concordo com o proj eto:

— Tu, Cary bé e eu e m ais quatro estivadores, vej o vários aqui...

Não são decorridos cinco m inutos, a um aceno do Governador as câm aras de televisão tom am posição, os refletores se acendem ilum inando o tablado: quatro gigantes — ou seriam seis? — e m ais Toninho e Cary bé levantam o sofá, passeiam Menininha nas alturas, o povo delira. Presto solidariedade m oral, não faço força m as toco com os dedos no sofá. Viva, vivô!

Paris, 1989.

Recomendação

Vam os pelo Marais com Anny -Claude, falam os de livros recentes, francesa de nascim ento, educação, cultura, é leitora fanática, brasileira por adoção, é carnavalesca de sam ba no pé. Adotou o Brasil, os brasileiros a adotaram , tem casa em Paris e casa no Rio, o coração dividido. Dividido? Penso que não, inteiro aqui e lá: em Paris, na plateia da Com édie Française para aplaudir Roland Bertin em 1'Avare de Molière, na Praça da Apoteose para saudar a bateria da Mocidade Independente no desfile das Escolas de Sam ba, no carnaval do Rio.

Atravessam os a Pont Marie, vam os tom ar sorvete na Ile de Saint-Louis, nos detem os a ver o Sena sob a luz do outono, ah, esta cidade de Paris, só a cidade da Bahia se lhe pode com parar. Anny gostou do rom ance de Roger Grenier*, Partita, tam bém das m em órias de André Kedros** quer saber: tu que conheceste Neruda tão bem, pensas que Kedros é justo quando fala dele?

*Roger Grenier, escritor francês.

**André Kedros, escritor grego

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Ao ver-m e, a m oça se destaca do braço do rapaz, vem correndo em m inha direção, pergunta se sou Amadô, sim , na França sou Am adô, no Brasil sou Jorge, na Bahia Jorginho, le petit Jorge, respondo rindo. Ela porém não ri, tom a-m e da m ão, tenta beij á-la, não deixo, com eça a chorar. Merci, diz e repete, merci, merci, vos livres ont changé ma vie. Fico sem j eito, ainda não m e habituei, j á devia ter-m e habituado com o alvoroço, com a com oção do leitor a fustigar-m e o peito. Tenho as m ãos da m oça entre as m inhas, sinto Zélia sorrir a m eu lado, com ovida. Quando a m oça retorna ao encontro do nam orado, enxugando as lágrim as, digo a Anny, talvez para aliviar-m e da em oção: não contes isso no Brasil irias passar por m entirosa.

Sucede com m ais frequência do que se poderia im aginar, ser parado nas ruas de Paris por leitores franceses que m e reconhecem e vêm m e falar, dizer que leram esse ou aquele livro, dizer com o e quanto lhes agradou. Afinal a prim eira tradução francesa de livro m eu a Gallim ard a publicou em 1938, há m ais de m eio século: o público se conquista dia a dia, livro a livro — o livro traduzido pode obter de logo sucesso de estim a, ninguém pode dizer que possui público na França antes de chegar às coleções de bolso, as de preço barato, o livro ao alcance de todas as econom ias.