Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 123 de 262

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Paris, 1948.

A notícia deixa-m e penalizado, da Volk und Welt só posso ralar bem . Detentora dos direitos de tradução de m eus livros na RDA, ela os publicou, a todos eles, boas traduções, belas edições, gráfica prim orosa, tiragens enorm es, pagou-m e os direitos autoras, tudo nos conform es.

Minto quando digo que publicou todos os m eus livros, houve um a exceção, um livro que a Volk und Welt não traduziu nem publicou. Em 1972 recebi carta do responsável literário (sic) da editora: recusava-se a editar Tereza Batista Cansada de Guerra, dava-m e a razão, ideológica: um a puta não pode ser herói positivo de um rom ance.

Herói positivo, sabem o que isso significava na literatura do m undo do socialism o real, esse que se acabou? Se não sabem não procurem saber, não paga a pena.

Paris, 1948.

O número

Paris, casa de Picasso, em torno à m esa de j antar, som os uns poucos na tentativa de convencê-lo a com parecer ao Congresso de Intelectuais pela Paz que se vai reunir em Wroclaw, na Polônia: Louis Aragon, Alexander Korneichuk, Pierre Gam ara, Em ílio Sereni e a cineasta polonesa Wanda Jacubowska, cuj o film e de estreia triunfa nas salas de cinem a. Wanda está sentada ao lado do pintor.

Picasso, intransigente na recusa, não irá, peçam -lhe outra coisa, pode doar um quadro, se preciso. Com parecer, j am ais, perda de tem po, tem m ais o que fazer, deve pintar. Gastaram -se todos os argum entos, caíram todos no vazio, term inam os por desistir, o Congresso não contará com a estrela de Guernica. Queij os e vinhos, com enta-se o film e de Wanda Jacubowska.

Picasso dem ora o olhar no braço nu da cineasta, vê o núm ero gravado, pergunta de que se trata.

— Meu núm ero no cam po de concentração onde estive durante a guerra.

Picasso passa de leve a ponta dos dedos no braço da m oça de Varsóvia, olha para nós, dirige-se a Aragon:

— Eu vou, podem contar com igo.

Foi e fez discurso, esteve o tem po todo. Depois desenhou, para outros congressos, a palom a signo da paz. Tocara com os dedos a desgraça da guerra, o terror.

Ilhéus, 1929.

A fonte

O livro de José Paulo Paes* sobre a poesia de Sosígenes Costa veio situar o poeta grapiúna no lugar que lhe com pete na lírica brasileira: não apenas um dos m aiores, um dos raros a não se parecer com nenhum outro, estrela solitária. De prim eira grandeza. José Paulo j á lhe havia concedido o Prêm io Jabuti, quando da publicação da Obra poética, concede-lhe agora o reconhecim ento da crítica e da história literárias.

Sosígenes conservara-se inédito até 1959 quando alguns am igos reunim os seus poem as na Obra poética**, revelação, bem poucos o conheciam . Recordo m inha surpresa ao ouvir a pergunta de Carlos Coqueij o Costa, nos com eços das carreiras de j urisconsulto e de com positor — Coqueij o era m últiplo, fazia de um tudo e bem —, queria o endereço de Sosígenes que se m udara de Ilhéus para o Rio, pretendia m usicar versos do vate do cacau, De Sosígenes e de seus poem as quase nada se sabia.