Navegação de Cabotagem
Curitiba, 1941.
*Deoscóredes Maximiliano dos Santos, filho de Mãe Senhora, personalidade das religiões afro-brasileiras.
Em 1985 a editora Bantam, de Nova York, pagou-me adiantamento relevante pelos direitos de tradução de Tocaia Grande, o preço desabitual mereceu comentário do New York Tim es, possibilitou-me a realização de outro sonho: um pied-à-terre em Paris. Descontados os impostos e a comissão do agente, os cobres da Bantam, somados ao pé-de-meia de Zélia, suas economias, deram na exata para pagar a mansarda do Quai des Celestins: da janela vemos o Sena, a Notre Dame, a Torre Eiffel e na ilha de Saint Louis, bem defronte, o apartamento de Georges Moustaki*.
*Georges Moustaki, cantor e compositor grego.
Curitiba, 1941.
Paixão
Maria a Chinesa desem barca com arm as e bagagens na cam a do hotel de Curitiba, aproveitam os cada m inuto da noite de esponsais, agora e sem pre, ai eu ladrão!
Buenos Aires, 1942.
Separação
Maria a Chinesa arrecada arm as e bagagens, am anhã irá em bora, aproveitam os cada m inuto da noite de despedida, agora e nunca m ais, ai eu ladrão!
Rio de Janeiro, 1946.
Liberdade religiosa
Em j aneiro de 1946 tom ei posse na Câm ara Federal de Deputados da cadeira para a qual fora designado pelos votos dos eleitores de São Paulo. Assum ira com Prestes o com prom isso de exercer o m andato durante três m eses, voltando em seguida a m eu trabalho de escritor. Fiquei dois anos, até que, num dia de j aneiro de 1948, fom os expulsos do Parlam ento, eu e m eus com panheiros de bancada.
Dia triste, de derrota política, a batalha pelos m andatos durara m eses, árdua e áspera —, batalha perdida, sabíam os desde o com eço. Dia alegre, pois m e livrei do fardo da deputação, não nasci para parlam entar, sou refratário às tribunas e aos discursos, só am o fazer o que m e dá alegria, o que m e diverte. Custou-m e esforço colocar-m e à altura do m andato, creio que não fui de todo m au deputado, apesar de m inhas lim itações e das decorrentes da suspeição que cercava a bancada com unista e do sectarism o que dirigia sua atuação. Fiz o possível, tarefa difícil e chata.
Se de algo m e envaideço quando penso nos dois anos que Perdi no Parlam ento é da em enda que apresentei ao Proj eto de Constituição — Senado e Câm ara reunidos em Assem bleia Constituinte, discutim os e votam os a Constituição de 1946 —, em enda que, vitoriosa, m antida até hoj e veio garantir a liberdade de crença no Brasil*.
*Inciso 6o do artigo 5º da atual Constituição.
A República, ao ser proclam ada, decretara a separação entre o Estado e a Igrej a — a Católica Rom ana —, m as a liberdade religiosa que dela devia decorrer não passara do papel, um a farsa. Colocada por inteiro — a teologia da libertação ainda não existia — a serviço da riqueza e do obscurantism o dos senhores de terras e do poder, a Igrej a Católica conservou todos os privilégios, todas as regalias. Dinheiro farto dos cofres do Estado para os "colégios de padre", subsídios de todo tipo, consideração oficial, absoluta: o Senhor Bispo m andava e desm andava, os Governadores beij avam -lhe reverentes o anel episcopal. As dem ais religiões, cristãs ou não, com iam o pão que o diabo am assou. Para as apelações protestantes, as tendas espíritas, os cultos populares de origem africana restavam a discrim inação, as restrições de todo tipo, a perseguição policial.
Em 1946 andei pelo interior do Ceará em cam panha eleitoral, Zélia à m inha ilharga, vim os coisas de pôr o cabelo em pé; tem plos protestantes saqueados, incendiados por m assas de fanáticos enfurecidos sob o com ando de sacerdotes católicos, a cruz erguida em guerra, aos gritos de Viva Cristo Rei. Os m esm os fanáticos capitaneados pelos m esm os padres que destruíram em poucos m inutos o palanque de onde devíam os falar, Zélia e eu, em com ício que não conseguim os realizar. Escapam os com vida por entre am eaças de beatas desvairadas e facas de sangrar porcos exibidas por j agunços, nunca vi a m orte tão de perto. Zélia recebeu uns em purrões de velhas carolas, quis reagir, tem i o pior, por sorte conseguim os em barcar num cam inhão e partir em disparada. Liberdade, nem religiosa nem política.
Se protestantes e espíritas passavam m aus pedaços, das religiões afro-brasileiras nem falar. Desde m ocinho, rapazola cursando a vida popular baiana, inclusive nas casas-de-santo, nos terreiros de candom blé, com Edison Carneiro, Artur Ram os*, Ay dano do Couto Ferraz**, foi-m e dado testem unhar a violência desm edida com que os poderes do Estado e da Igrej a tentaram aniquilar os valores culturais provenientes de África. Buscavam exterm inar tradições, costum es, línguas tribais, os deuses, elim inar por com pleto as crenças da gente m ais pobre e m ais sofrida.
*Artur Ramos (1903/1954), antropólogo.
**Aydano do Couto Ferraz (1914/ 1989), jornalista.
Menino de quatorze anos com ecei a trabalhar em j ornal, a frequentar os terreiros, as feiras, os m ercados, o cais dos saveiros, logo m e alistei soldado na luta travada pelo povo dos candom blés contra a discrim inação religiosa, a perseguição aos orixás, a violência desencadeada contra pais e m ães-de-santo, iaôs, ekedes, ogans, babalaôs, obás. Não vou m e dem orar no que m e foi dado ver, os lugares sagrados invadidos e destruídos, iy alorixás e babalorixás presos, espancados, hum ilhados, nunca esquecerei de pai Procópio, as costas em sangue, resultado da surra de chicote no xadrez. Tais m isérias e a grandeza do povo da Bahia são a m atéria-prim a de m eus rom ances, que os leia quem quiser saber com o as coisas se passaram . A em enda da liberdade religiosa custou-m e trabalho e astúcia. A astúcia de não colocar o assunto diante da bancada ou em reunião do Bureau Político, de levá-lo diretam ente a Prestes, chefe inconteste, talvez por isso m esm o m enos sectário, m ais aberto que os outros dirigentes. Aproveitei a vinda ao Rio de Giocondo*, figura respeitada — com andante m ilitar da revolta de Natal, em 1935, condenado a dez anos de prisão, vivera com nom e falso até a anistia, m ilitante provado, hom em decente — para em sua com panhia ir conversar com Prestes. Fam iliar do problem a, Giocondo o expôs em todos os detalhes, cham ando a atenção do secretário-geral para os dividendos que o Partido poderia obter j unto ao povo se tom asse a si a defesa das religiões populares; assim conseguim os o aval do dirigente m áxim o para a em enda. Se eu a houvesse levado à bancada ou ao conj unto da direção, j am ais teria obtido autorização para apresentá-la: sendo a religião o ópio do povo, droga ainda pior era o candom blé, barbaria prim itiva, incom patível com o socialism o, nossa m eta. Quanto a m im , na opinião de vários cam aradas, escritor im oral, não passava de pequeno-burguês portador de sérios desvios ideológicos. Arm ado com o aval do Cavaleiro da Esperança, com ecei por acusar as assinaturas dos com ponentes da bancada, nem sequer Prestes, senador pelo Distrito Federal, a assinou. De com unista apenas eu, m ais fácil fazê-la tram itar com o proj eto de intelectual conhecido, ligado às seitas afro-brasileiras, bem -visto apesar de com una. Fosse da bancada a em enda nasceria m orta.
*Giocondo Dias (1913/1987) foi secretário-geral do PCB.
O exercício do m andato pela bancada com unista tornara-se cada vez m ais difícil à proporção que o clim a dem ocrático resultante da vitória das Nações Unidas sobre o nazism o cedia lugar às discórdias da guerra fria. Os deputados dos dem ais partidos nos olhavam com olhos de suspeita, quando não de repulsa. Qualquer em enda ou proj eto da bancada via-se rej eitado in lim ine. O que estará por detrás disso? perguntavam -se senadores e deputados do PSD, da UDN, do PTB ou do PST, descobriam na proposição m ais inocente o fam igerado dedo de Moscou. As gerações atuais não sabem o que significavam o dedo e o olho de Moscou: estavam em toda a parte am eaçando a sociedade estabelecida, a religião, a m oral, os bons costum es, a fam ília brasileira. Havia tam bém o ouro de Moscou, m as essa j á é outra história.
Em enda batida a m áquina, eu a assinei e fui em busca de Luiz Viana Filho, baiano e escritor, autor de livro sobre O Negro no Brasil, deputado pela UDN, subm eti-lhe o texto da em enda, convidei-o a assiná-la, baiano e escritor ele a assinou. Fiquei à espreita de Gilberto Frey re, deputado por Pernam buco (pela Esquerda Dem ocrática, creio), o m estre de Apipucos não com parecia a todas as sessões, não dava tam anha confiança à Assem bleia, quando subia à tribuna o plenário se enchia, as galerias ficavam repletas, os j ornalistas agitavam -se indóceis, Otto Lara Resende deve se lem brar. Mal o vi, sequestrei-o dos adm iradores, levei-o a um canto, m ostrei-lhe a em enda — os xangós do Recife vão poder dançar em paz —, ele colocou-lhe o valioso autógrafo, com entou em voz baixa, o sorriso sedutor: por que não pensei nisso? Assim andei de bancada em bancada, de deputado a deputado, de Otávio Mangabeira a Milton Cam pos, de Herm es Lim a a Café Filho, de Nestor Duarte a Vargas Neto, obtive para m ais de oitenta assinaturas, o apoio de Cirilo Júnior e o de Prado Kelly, líderes do PSD e da UDN. Com a aprovação da em enda, a liberdade religiosa foi inscrita na Constituição, tornou-se lei.
Essa a m inha contribuição para a Constituição Dem ocrática de 1946. Transform ada em artigo de lei a em enda funcionou, a perseguição aos protestantes, a violação de seus tem plos, das tendas espíritas, a violência contra o candom blé e a um banda tornaram -se coisas do passado. Para algo serviu m inha eleição, a pena de cadeia que cum pri no Palácio Tiradentes, constituinte apagado, deputado de pouca valia.