Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1939.
Eis que por coincidência Ênio Silveira aparece na Bahia, vem receber o título de cidadão baiano que a Câm ara Municipal lhe concedeu. Conta-m e das dificuldades que a editora atravessa, a perseguição política, a luta pela sobrevivência. Aj udo-o a vender um a batelada de títulos da boa literatura que ele tam bém edita ao governador do Estado, Antônio Carlos Magalhães. Antônio Carlos não é ingênuo, está por nascer quem o poderá enrolar, sabe que, ao com prar livros de Adonias Filho, Guilherm e Figueiredo, Nabokov, Steinbeck, Hem ingway, Cam pos de Carvalho, está subvencionando a tradução e a difusão dos subversivos do m arxism o-leninism o, ele o faz em sã consciência. Ênio m e agradece a solidariedade que dem onstro à Civilização Brasileira.
— Solidariedade com tua editora? Não é de hoj e. Não sou eu, por acaso, quem a sustenta? Gasto fortunas com a cultura m arxista de João Jorge. Vives às custas de m eu filho, caro Ênio.
Após trinta anos de vida em comum, de amigação — gosto demais da palavra amigação, usada para nomear o que o código de família denomina concubinato, tenho aversão à palavra concubinato, má e feia, filha do preconceito e da discriminação —, Zélia requer, no uso da lei, o direito de usar meu sobrenome, assinar-se Amado. Na Bahia perde acausa, o juiz encagaçou-se, ignomínia; em São Paulo ela a ganha, junta Amado a seu nome de solteira.
Não tarda, Nelson Carneiro* vence a guerra do divórcio, eu e Zélia nos casamos. Três anos depois, dona Zélia sai do sério, escreve e publica um livro, Anarquistas, graças a Deus, em cujas páginas narra sua infância de filha de imigrantes, italianos anarquista católicos, no quadro de uma São Paulo afarista onde nasciam capitalismo com os matarazzos e os crespi e o movimento operário na sede das Classes Laboriosas e de outros grêmios culturais e reivindicativos. O livro fez sucesso, ainda o faz, repetem-se as edições, é traduzido, virou série de televisão na transposição (magnífica) de Walter Avancini. Dona Zélia tomou gosto, anda pelo quinto volume de memórias sem falar nas histórias para crianças. Não querendo usar muletas na caminhada literária, assinou seus livros com o nome de solteira, voltou a ser Zélia Gattai, renome nacional, por pouco tempo lhe servi de arrimo.
Para mim, nem Amado nem Gattai, apenas Zélia, quando não Zezinha.
*Nelson Carneiro, advogado e político.
Rio de Janeiro, 1939.
Urca
Tem pos bicudos, pobre de Jô, sou redator-chefe de Dom Casmurro sem anário de literatura, espécie de Nouvelles Littéraires traduzidas em brasileiro por Brício de Abreu, bon-vivant com m uitos anos de Paris, o cargo não m e rende vintém furado. Tam pouco o de redator de Diretrizes, na prim eira fase da revista de Sam uel Wainer. Vivo de biscates.
A ditadura do Estado Novo fecha-m e as portas, dificulta as oportunidades de trabalho, tentei São Paulo, sem sucesso. Escrevo sob pseudônim o para Carloca e Vamos Ler!, revistas do grupo d e A Noite, m eus am igos Magalhães Júnior e Antônio Vieira de Melo facilitam -m e uns caram inguás sem anais. Redij o diálogos para chanchadas, colaboro com Alinor de Azevedo* e Moacir Fenelon** em cenários para film es da Atlântida, Carm em Santos, a inesquecível, com pra-m e os direitos cinem atográficos de Mar Morto. Faço de um tudo e m ais que tudo participo da atividade do pecê.
*Alinor de Azevedo, cineasta.
**Moacir Fenelon, cineasta.
Os tem pos são bicudos porém alegres, m eu apartam ento na Urca, ao lado m esm o do Cassino, é um a espécie de república das letras e das artes em festa perm anente. Nele se hospedam por alguns m eses ou alguns dias um a caterva de ilum inados: o pintor Carlos Scliar, o cineasta Fernando de Barros, o arquiteto Português Eduardo Anhaory, a artista plástica Tereza d'Am ico, ávida e travessa.
Scliar nos sustentou durante m eses pintando os retratos das irm ãs e de outras parentas de Maria de Adem ar de Barros: aluna de piano de Mário de Andrade, apaixonou-se pelo professor, arrem eteu, Macunaím a fugiu-lhe dos braços. No desgosto ela se tornou am ante oficial de Adem ar, interventor do Estado de São Paulo, dinheiro farto, autom óvel de luxo, cadilac, rom ântica ao luar do galanteio, devassa no leito da suruba, flor de pessoa. Era nossa patronesse, convidava-nos a j antar, servia patê de foie gras e cham panhe Veuve Clicquot. Que fim terão levado as aquarelas de Scliar, retratos de fam ília, Maria de Adem ar e as irm ãs, todas bem am igadas, ela com o governo de São Paulo, as irm ãs com m ilionários: am oráveis, boas de cam a.
Vivem os igualm ente às custas de A arte de ser bela, livro de receitas de m aquiagem assinado por Fernando de Barros, m aquiador a serviço da perfum aria Coty que lhe encom endara o volum e para presentear com ele a freguesia. Fernando chegara ao Brasil em 1938 em com panhia de Chianca de Garcia, na intenção de film ar Capitães da Areia, sendo Capitães livro proibido film aram Pureza de Zé Lins. Escrevi o livro de Fernando em duas noites, Scliar fez as ilustrações, Anhaory desenhou a capa, Zélio Valverde editou. A arte de ser bela nos deu de-com er e de beber, dinheiro para o aluguel do apartam ento: bons tem pos.
A partir das nove da noite o apartam ento se enchia de visitas, as convidadas de Anhaory, condessas e m idinettes, as de Fernando, senhoras de alta estirpe, coristas do Cassino, freguesas da Coty, estrelas do teatro de revista, clientela vasta a dos dois m ondrongos. Vinham os nam orados de Tereza, ela os revezava, variava m uito, açam barcadora, durante três sem anas foi noiva de Otávio Malta, figura grada, j ornalista de renom e, capapreta do Partido, nossa ligação com o Bureau Político, ainda noiva pespegou-lhe chifres, Malta abandonou a raia. Apareciam os artistas, a banda de Scliar, Ceschiati com eçava a esculpir, Athos Bulcão j á era gordo, carregavam telas, pincéis e tintas, suavam talento por todos os poros.
Para com pletar a festa, a turm a de Diretrizes, os literatos, os políticos, os subversivos: Sam uel, Malta, Moacy r Werneck, Carlos Lacerda, Noel Nutels, e um a trupe de j udias casadas e solteiras, um a sardenta se cham ava Bertinha, m orreu adolescente, quis-lhe m uito, dediquei-lhe um livro. Moacy r Werneck de Castro noivava Ly gia Fagundes Telles, novel ficcionista, j á então um a beleza, não tanto ainda quanto hoj e. Maria de Adem ar e as irm ãs não faltavam , eram da fam ília, ao m enos prim as, seriam irm ãs não fosse incesto.