Navegação de Cabotagem
Porto Alegre, 1942.
Conspiração palaciana
Hom enagem de despedida em Montevidéu, aos exilados brasileiros que regressam à pátria — o Brasil declarou guerra ao Eixo nazifascista, decidim os ser nosso dever cooperar com o governo no esforço de guerra, irem os im pávidos para a cadeia. Ato político, gesto altissonante, de repercussão, alguns m ilhares de uruguaios se reúnem para saudar os últim os Soviéticos. Discursos, hinos, vivas às nações unidas, à União frente, aos líderes, a Churchill, a Roosevelt, a Stalin, Stalin à frente e acim a, Deus é bigodudo e nasceu em Gori, na Geórgia. Rodolfo Ghioldi* ao fim da oratória cham a-m e para conversa a sós, anuncia-m e a decisão dos pecês da Argentina e do Uruguai:
*Rodolfo Ghioldi, dirigente do pecê argentino.
— Tu não irás com eles.
Irrom po em desagrado, por que m otivo tentam roubar-m e a glória de estar entre os patriotas que se oferecem em holocausto? Rodolfo aplaca m inha ira: tranquiliza-te, irás am anhã para o Brasil, apenas não irás no trem com os dem ais, vais de avião cum prir um a tarefa em Porto Alegre, de im portância. Passa a explicar, escuto com atenção, tem a ver com Prestes, sinto-m e recom pensado.
O interventor do Estado do Rio Grande do Sul é o general Cordeiro de Farias, no futuro será m arechal, no passado foi um dos com andantes da Coluna Prestes, ressaltei-lhe a coragem e a capacidade m ilitar em O Cavaleiro da Esperança, deve estar cocando os ovos de contente. Minha m issão é procurá-lo, obter um encontro, explicar-lhe a posição dos com unistas solidários com o governo de Getúlio na guerra contra o Eixo e lhe dizer com o seria desej ável e útil que ele, Cordeiro de Farias, fizesse um a visita a Prestes de quem se proclam a am igo. Rom peria o isolam ento em que vive há sete anos o com andante-em -chefe da Coluna — m into: o com andante-em -chefe foi o general Miguel Costa, Prestes era o chefe do estado-m aior, ou sej a, aquele que m andava, ditava ordens inclusive a Miguel Costa. Os cam aradas dirigentes dos dois partidos com unistas consideravam que tal proposta, provindo de m im , escritor conhecido, autor do livro badalado no qual o general Cordeiro fazia figura de herói, teria possibilidades de ser aceita e levada a cabo. Rodolfo entrega-m e a passagem de avião, aperta-m e contra o peito, sei quanto Carm en e ele gostam de m im , nossa am izade vem dos tem pos perseguidos da intentona.
Desem barco em Porto Alegre, hospedo-m e com Henrique Scliar, o velho anarquista recebe-m e com o afeto de sem pre, não m e faz perguntas. Durante a viagem am adureci um plano de ação, não pude fazê-lo antes, a noite eu a ocupara em despedida: Maria Condessa dos Seios de Lim ão, fidalga rural, viera de la hacienda na província do Oriente, o m arido m e enviava um a caneta de ouro, e m ínim a, perfum ada de boceta. Católica praticante ela não trepava, pecava o pecado da carne, fogueira de lenho sagrado, gozava em latim : mea culpa, mea máxima culpa. Saía da cam a para o confessionário.
Manuelito d'Ornelas, escritor de proj eção regional, m eu am igo, é secretário de Educação do Estado. Tenho o endereço da residência, espero o fim da tarde para visitá-lo. Vou devagar pela rua tranquila, deserta de passantes, chego em frente à casa térrea, pela j anela aberta vej o Manuelito sentado à escrivaninha lendo, bato palm as à porta. A esposa vem abrir, ao reconhecer-m e contém um grito, m anda-m e entrar, rápida tranca a porta, vai cham ar o m arido, aproveita para fechar as j anelas, sou um zum bi.
Converso com Manuelito na obscuridade da sala, a dona da casa foi providenciar um cafezinho: explico o problem a, reage bem , coloca-se às ordens. Vou falar com o Interventor em seguida, me espere aqui, volto com a resposta. A senhora chega com as xícaras de café: coei agorinha mesmo, sorri refeita do susto. Jorge vai jantar conosco, avisa Manuelito, eu vou sair mas não demoro. Ela m ove a cabeça em concordância, pede licença, deixa-m e só por um m om ento, vai à cozinha dar ordens para reforçar a bóia. De regresso faz-m e sala, é inteligente, fala de livros, pergunta pelo Uruguai. Manuelito retorna, o general m e espera à m eia-noite, no Palácio.
Da m eia-noite às três e m eia da m anhã o general Cordeiro de Farias e eu discorrem os sobre a política m undial e a brasileira, os percalços da guerra, os prognósticos. Com eçam os pelo panoram a das frentes de batalha, Manuelito m e acom panhara para introduzir-m e, participa, ele e eu arriscam os palpites, m as o general, falastrão e sim pático, teórico em assuntos m ilitares, pontifica. Manuelito se despede, deixa-m e a sós com Cordeiro de Farias, entro no assunto, dou o m eu recado.
Falo da posição dos com unistas, igual no m undo inteiro, tudo Pela guerra, abandono do radicalism o, m udança se necessário do nom e do partido — vem de acontecer em Cuba onde os com unistas e o ditador Batista se uniram em frente antifascista —, o que im porta é derrotar Hitler, tudo o m ais torna-se secundário, as palavras de ordem convocando à luta contra o Estado Novo j á não têm razão de ser, nem a agitação social, reivindicações e greves, o im portante é unir toda a nação em torno do governo, em torno de Getúlio. Cordeiro, dublê de m ilitar e de político, ouve interessado.
Chego a Prestes, falam os de m eu livro, eu o escrevi para aj udar a anistia dos presos políticos, sabem os que há um longo cam inho a palm ilhar antes de consegui-la, Cordeiro agradece-m e os elogios feitos à sua atuação, relata circunstâncias, diz bem de Prestes, do com andante e do hom em de princípios: nem por discordar da ideologia m arxista e condenar o com unism o, deixou de adm irá-lo e de estim á-lo, na minha vista, diz, não admito que se levante a voz contra ele. O acento sincero, a voz firm e, sinto-m e anim ado, avanço com a proposta da visita.
Visitá-lo? O general fica pensativo, com o a pesar e a m edir os prós e os contras. Bem que gostaria de visitá-lo, a situação de Prestes o confrange, não há direito de tratá-lo com tam anha crueldade, não esconde sua pouca estim a por certas figuras do governo. Prom ete-m e fazer um a dém arche j unto a Getúlio, tentará obter a autorização, m as será que Getúlio conseguirá dobrar Dutra, Filinto, Góes Monteiro, os dem ais centuriões do regim e? Tem dúvidas, Getúlio chuta com os dois pés, equilibra-se entre as tendências que se hostilizam no seio do governo, de um lado Lourival Fontes, de outro o coronel Afonso de Carvalho, mulato e nazista, imagine-se! Não tem papas na língua, parece sentir prazer em abrir o j ogo, revelar seu pensam ento. Quanto à visita, Orlando Leite Ribeiro j á tentara j unto a Vargas salvo-conduto para visitar Luiz Carlos, não conseguira, os dois m aiores am igos de Orlando são exatam ente Prestes e Getúlio. O general tentará m as tem dúvidas sobre o resultado, é pessim ista. Vá ficando por aqui, diz-m e em despedida, mas se receber ordens do Rio não terei outro jeito senão mandar lhe prender, quanto à visita vou mexer meus pauzinhos, vamos ver que bicho dá. Leva-m e até a porta de saída, os soldados de guarda batem continência.