Navegação de Cabotagem
Lisboa, 1989.
A tia
A cada encontro no restaurante de Mim i, no Parque May er — sem o Restaurante Am adora o Parque j á não é o m esm o —, Antônio Alçada Baptista* apresenta-m e à m ais bela de ofícios diferentes: a m ais bela advogada de Portugal, a m ais bela redatora, a m ais bela dançarina e por aí vai, são m uitas. A m ais bela? Maneira de louvar do sedutor: bonitas todas, um as m ais, outras m enos, charm osas, elegantes, sobretudo apaixonadas. Antônio as pastoreia, ar de frade em férias, pecam inoso.
*Antônio Alçada Baptista, escritor português.
Ensaísta consagrado, polêm ico, Antônio estreou na ficção com rom ance que fez época, entusiasm o da crítica, prêm ios, best-seller, O nó e os laços: o com eço do livro é um achado. Gosto do rom ance, m as ainda sinto em certas páginas a presença do ensaísta a debater ideias. Vou m e deparar com o ficcionista puro, solto na condução da narrativa, num pequeno rom ance, Catarina ou o sabor da maçã — atualm ente utilizam o term o novela para designar um rom ance curto ou um conto longo, a novidade não m e seduz, o núm ero de páginas não determ ina gênero literário. A história m e tom a e leva no encanto da leitura, a prosa suculenta, os personagens de carne e sangue, não de caneta e tinta, a vida lisboeta, Antônio Alçada se entregando por inteiro ao prazer da escrita: sucesso estrondoso e m erecido.
Outro rom ancinho, Tia Suzana, meu amor, delícia igual ao da m açã, descreve as intim idades de pensam ento, religião e cam a do narrador, um rapazola — o autor fazendo-se de personagem ? Só o próprio Antônio poderia responder — e um a sua tia, balzaquiana. Na cam a coçam -se m utuam ente as costas, catam -se cafunés, trocam beij inhos, m ordiscam -se os lóbulos das orelhas, escorrem as m ãos dos rostos aos pés, nos altos e baixos e nada m ais acontece, acredite quem quiser. Ternura inocente de sobrinho e tia, ela, se bem m oça, m ais velha do que ele, a cam isola de dorm ir m al encobre a perfeita anatom ia, nos dias friorentos o calor, nos dias calorentos o frescor do corpo. Dela decerto, dessa tia m eio freira m eio diaba, herdou Antônio o ar de frade em férias, prevaricador.
— Tu queres m e convencer, Antônio, que j am ais tu e tua tia chegaram às vias de fato?
— Prim eiro não som os eu e m inha tia, são o personagem e a Suzana, tia dele. Mas, ainda que fôssem os eu e a tia, posso te garantir que tudo não passou de ternura, nada além das cosquinhas.
— As cosquinhas, os cafunés, os toques, os beij inhos, os fornicoques, tudo platônico?
— Tudo. Mais pura e inocente que tia Suzana nunca houve. Antônio Alçada Batista fala sério, o ar de frade im aculado.
Acredite quem quiser, eu hein! não sou daqui, não conheço os costum es locais, os hábitos de cam a, na Bahia tia Suzana não escapava.
Rio de Janeiro, 1953.
Antissemitismo
Quando tudo j á está em ordem — passagens, passaportes, vistos de saída — para o em barque no dia seguinte, dom ingo, da delegação de intelectuais brasileiros que irá visitar a União Soviética, um dos privilegiados adoece, abre vaga. Trata-se da segunda delegação, a prim eira acontecera no ano anterior, dela haviam participado Graciliano Ram os, Dalcídio Jurandir, Arnaldo Estrela, Mariuccia Yacovino, Sinval Palm eira*. Gastáram os tem po, Maurício Grabóis, m em bro do Bureau Político do Partido, na ocasião dizia-se Com issão Executiva, e eu próprio, responsável na Com issão de Cultura, estudando cada nom e detidam ente, pesando e com parando, para enviar à pátria do socialism o os m elhores, os m ais dignos de tal regalia, prêm io sem tam anho. Recordo alguns dos escolhidos: Dj anira, José Geraldo Vieira, Miécio Tati, Jam es Am ado, Dias Gom es, Lila Ripoll, Cláudio Santoro, Danúbio Gonçalves, todos desse porte, aliando ao talento a lealdade partidária, a solidariedade incondicional à URSS.
*Sinval Palmeira, advogado
Vale a pena m encionar que vivíam os a época do stalinism o desvairado: os processos, as condenações, os cam pos de concentração, o anti-sem itism o nem por cam uflado m enos m onstruoso. Não era fácil ser, com o eu o era, m ilitante com unista, m enos ainda alto dirigente com o era Maurício Grabóis, a quem m e ligava velha am izade dos tem pos de j uventude na Bahia. Inteligente e sim pático, de trato agradável, educado, Maurício não exibia o azedum e e a prepotência habituais aos m andatários do Partido que viviam na suspeita e na desconfiança, duvidando de tudo e de todos. Morreu com unista, com andante de guerrilha no Pará, lutando contra a ditadura m ilitar.
Coube-m e decidir sozinho sobre o preenchim ento da vaga, pois, tendo ela acontecido num sábado, eu não tinha possibilidade de ouvir Grabóis antes da partida da delegação no dom ingo, ele vivia e atuava na clandestinidade, nossos "pontos" eram m arcados com antecedência. Um nom e m e ocorreu, por todos os m otivos o m ais indicado, o do pintor Carlos Scliar, j ovem artista de sucesso, cabo artilheiro da FEB, habituado a viagens ao estrangeiro, dono de passaporte. Consegui um a ligação telefônica para Porto Alegre onde ele vivia, convidei-o: ouve, Carlitos: se tens passaporte em ordem e se estiveres am anhã antes do fim da tarde no Rio, com visto de saída, em barcarás à noite para Moscou. Estarei aí amanhã a tempo de embarcar, garantiu Scliar. Assim foi.
Ao encontrar Grabóis na reunião sem anal, num canto qualquer do Rio, noite alta, ele estava transtornado, um a fera, não escondia o m au hum or, a irritação, a indignação, o m edo para tudo dizer:
— O que te passou pela cabeça para escolher Scliar? Eu não tenho nada a ver com isso, j á disse a Arruda* que a culpa é toda tua. Por que diabo?
*Diógenes de Arruda Câmara, dirigente comunista.
— Scliar é um dos artistas m ais im portantes do Partido, m ilitante firm e, ninguém m erece tanto a indicação. O que tens contra ele?
A voz de Maurício veio da som bra, incerta:
— Ele é j udeu...
— Tu tam bém és j udeu... — repliquei espezinhando.
— Por isso m esm o... — na voz trêm ula do m em bro do
Bureau Político transparecia o m edo, dava pena.
Medo de ser afastado, posto fora do Partido, sua trincheira de luta, para ele não havia outra. Então eu tam bém senti m edo, m edo pânico — tudo, m enos ser expulso, retirado do com bate, acusado de estar a serviço do inim igo.
Entre meus pertences prezo de forma especial uns poucos objetos, de valor variável, por tê-los recebido de amigos que não cultivam o hábito de presentear, muito ao contrário, têm fama de sovinas — todos eles, sem exceção, consideram a fama injusta.
Possuo uma bolsa retangular, de bom tamanho, que carrego comigo para toda parte, nela guardo meus documentos, talões de cheque, papéis importantes, retratos de meus filhos e dois de Zélia, um recente, outro de 1945, ano em que a conheci. Foi-me dada de presente por Dorival Caymmi*, meu irmão quase gêmeo — até hoje Carybé diz que não acredita.
*Dorival Caymmi, compositor e cantor.
Certo dia — conto a história —, Dorival me apareceu sobraçando bolsa tão maneira, gostei tanto, elogiei demais, terminei pedindo que me desse de mimo, prova de estima: será a primeira, supliquei. Me respondeu que não podia, pois lhe tinha sido oferecida por Stela* em data aniversária, impossível desprender-se dela. Ao regressar ao Rio, porém, me mandaria uma igual. Não acreditei na promessa, quem acreditaria? Mas, como diz o dito popular, o impossível acontece, dias depois recebi, enviada do Rio por Dorival, bolsa idêntica e nova: convoquei Carybé e Mirabeau para ter testemunhas do milagre.
*Stela Maris, pseudônimo de Adelaide Tostes, mulher de Caymmi, cantora.
Esse senhor Dorival Caymmi, o moço Caymmi, meu parceiro e cúmplice — se ele escrevesse escreveria meus romances, se eu compusesse comporia suas músicas —, ao me oferecer a famosa bolsa, reconhecia ter-me afanado uma quantidade de bengalas, além das que, de moto próprio, lhe ofertei: certa feita atravessei a Europa e o oceano Atlântico levando na mão enorme bastão de pastor do País de Gales, galho de árvore longo, pesado e espinhento. Dos muitos objetos de minha propriedade surrupiados pelo cantor das graças da Bahia, só não lhe perdôo o rádio russo que eu trouxe de Moscou e dei a Paloma, ainda solteira. Dorival o pediu emprestado para ouvir os jogos da Copa do Mundo de setenta, nunca mais Paloma pôs a vista no pequeno aparelho, de muita estática, mas ainda em bom estado.
Coleciona rádios, bengalas, pedras semipreciosas e otras cositas más, várias outras. Quando sai de visita a amigos leva ao ombro respeitável embornal, quase um saco de viagem, no qual recolhe o que vai obtendo de casa em casa. Entra em casa alheia, apenas a conversação se inicia, pergunta se alguém ali não tem uma prendazinha para mim — quem resiste ao pedido? Um a prendazinha aqui, outra acolá, quando regressa ao lar, aos braços de Stela Maris, conduz féria vasta, a colheita do dia, espalha em cima da mesa ou do sofá, dá o balanço, feliz da vida. Falo de Dorival Caymmi meu mabaça, compositor, poeta, doutor honoris causa, obá da Bahia, um dos brasileiros principais: sua canção de amor, melodia linda.
Exibo na casa do Rio Vermelho caótica coleção de arte popular, de certo valor pelo número e procedência das peças e pela qualidade de algumas delas — carta de pescador esquimó gravada em dente de elefante-marinho, presente de Eremburg, vaso de opalina com as armas imperiais de Nicolau I, tzar de todas as Rússias, oferta de Sacha Fadeev e, entre as mais belas, um boi, o maior de todos os bois de barro amassado pelas mãos mágicas de mestre Vitalino de Caruaru, nos primeiros tempos de sua criação artesanal.
Acredite quem quiser, sei que é difícil acreditar, o zebu de Vitalino foi-me dado de regalo por João Condé* e eu afirmo que ele estava sóbrio, não tinha febre, saúde perfeita, quando me fez o dom. Um rasgo de loucura desses que levam os indivíduos a atirar dinheiro pela janela. Faz mais de cinquenta anos desse lance incrível ou seja, há mais de meio século João Conde me roga que lhe restitua o boi, o maior boi de Vitalino, cerâmica sem preço: vale uma fortuna, segundo me diz o incauto ex-proprietário, os olhos marejados de lágrimas, autênticas.
*João Condé, homem de letras.
Esse senhor João Condé devia ter-me dado não apenas o boi aqui citado e, sim, toda a sua imensa coleção de peças dos artesãos de Pernambuco, algumas das imagens de santos — possui muitas, nenhuma lhe custou um níquel sequer — e uns quadros do pintor Cícero Dias, dos que lhe afana quando passa por Paris, e ainda não estaria pagando o que me deve. Não me refiro aos originais de romances, cartas e textos, de depoimentos escritos especialmente, o material inumerável com que concorri para os seus Arquivos Implacáveis. Refiro-me às belas que chamou aos peitos fazendo-se passar por mim: naqueles tempos, diziam, nós nos parecíamos. Ele namorava e assinava autógrafos como se fosse eu. — Autógrafos?
— Muitos, nem imaginas...
— Em livros, João?
— Em livros quando elas me trazem os exemplares, senão em pedaços de papel, não estou para gastar dinheiro comprando teus livros. Se ainda fossem do Zé Lins*...
*José Lins do Rego (1901/1957), escritor.
Encontrava-me eu na Argentina, exilado, soube que no Rio um gaúcho me buscava, armado de revólver, para matar-me a sangue-frio, eu o teria feito corno com a ajuda da esposa lá dele, turista às ordens em Copacabana, quando os chifres ele os devia a João Conde, namorador.
Por felicidade tratava-se de um gaúcho da fronteira, meio brasileiro, meio argentino, não era de temer-se. Se o chifrudo fosse paraguaio, o conquistador caruaruense estaria hoje morto e enterrado: na lápide sobre o túmulo, gravado a bala, meu nome, pseudônimo de João Conde.