Navegação de Cabotagem
Bahia, 1970.
Poder escritor
Nas gazetas a notícia do proj eto de censura aos livros de autoria do professor Alfredo Buzaid, Ministro da Justiça no governo Médici. Vivem os o m om ento m ais negro da ditadura m ilitar: a tortura é o pão quotidiano do regim e, o cerco aos dem ocratas se estreita: cárceres repletos, sequestras, assassinatos. Sucedem -se leis e decretos, liquida-se a cidadania. Pelo Proj eto em vias de ser lei, será estabelecida a censura prévia para a publicação de livros: obrigatoriedade do envio dos originais aos censores, a publicação será perm itida na íntegra ou com cortes ou sim plesm ente proibida.
Tom o do telefone, ligo para Érico Veríssim o em Porto Alegre: — Leste o proj eto de censura?
— Que horror! Precisam os fazer algum a coisa. — E o que venho te propor. Som os os dois escritores m ais lidos do país, os de m aior público, é tem po de exercerm os nosso poder.
Proponho a Erico, e ele im ediatam ente aceita, redigirm os e assinam os declaração dizendo que j am ais, em nenhum a hipótese, enviarem os originais à censura prévia m esm o que isso signifique renunciar à publicação de nossos livros no Brasil. Ali m esm o m o, ao telefone, encontram os entre os dois os term os enérgico da declaração e com binam os a estratégia a adotar para que ela apareça nos j ornais. Ele em Porto Alegre, eu na Bahia, darem os cópia às folhas locais e às sucursais dos órgãos cariocas e paulistas algum há de publicar. Assim fazem os.
Vou ver Jorge Calm on* na redação de A Tarde, ele lê a declaração, garante-m e o m aior destaque. Vou aos dem ais quotidianos da cidade e às sucursais, Florisvaldo Matos era correspondente de j ornal do Rio, vibrou. Tiro e queda: na m anhã seguinte o docum ento assinado por Erico e por m im está na m aioria dos m atutinos do Rio, de São Paulo, de Porto Alegre, da Bahia. Os escritores com eçam a em prestar solidariedade, telefonam , escrevem , telegrafam às redações dando-nos apoio: o prim eiro a fazê-lo, se bem m e recordo, foi o poeta Ledo Ivo. Manifestos contra a censura prévia recolhem assinaturas, o protesto se am plia em m ovim ento nacional.
Declaração dúbia do Ministro, prom ete reexam inar o proj eto, term ina por engavetá-lo, a censura prévia não resiste ao im pacto, vai para a lata do lixo autoritário. Para algum a coisa há de servir possuir grande público, leitores em profusão, m erecer carinho e respeito: o poder dos escritores.