Navegação de Cabotagem
Estoril, 1981.
Recém -publicado o livro de Paulo, nossa com adre Beatriz Costa dá-nos a alegria de passar uns dias na casa do Rio Verm elho, tem roda de am igos na cidade, m esa cativa, a agenda de com prom issos sem pre repleta, m as a com adre veio em busca de sossego e paz, está entregue de corpo e alm a, de corpo sobretudo, a paixão voraz, devoradora, coisa boa, nada existe de m elhor, regalia. Enquanto recorda peripécias de am or, o pensam ento naquele que árdego e im paciente a espera em Portugal, diverte-se lendo o livro de m inhas criaturas, a obra de Paulo.
Lá encontra seu nom e, ilustre e popular, pois entre a m ultidão de adm iradores brasileiros de seu talento e de sua picardia achava-se Vadinho e num livro se conta que tendo o boa-vida ido ao Rio foi ao Recreio aplaudir a estrela m áxim a do teatro de revista. No volum e, o nom e de Beatriz, o local de nascim ento, os dados todos e, entre eles, valha-nos Deus!, a data fatídica e ignorada do nascim ento. Beatriz se exalta: não pode ser! Onde esse tal de Paulo Tavares, sujeito metido, maldizente, mentiroso, provocador, foi buscar a informação desnecessária? Indignada, procura e encontra no caderno de endereços o núm ero do telefone de Paulo, liga, Hay dée atende, ao saber quem fala vibra de em oção: Paulo, adivinhe quem é! Paulo tom a do aparelho cum prim enta extasiado, desdobra-se em am abilidades, na outra ponta do fio, Beatrizinha educada, da fina educação saloia, quer saber por que ele inventou e pespegou no verbete aquela data fatal de nascim ento. Paulo, atarantado, se explica: nada inventou, penou a buscá-la nos dicionários, nas enciclopédias, em parte algum a encontrava o esclarecim ento, de data nem cheiro nem rastro, j á pensava em se dar por vencido: Beatriz não nascera, surgira no palco em dia de triunfo, eis que deparou com a inform ação:
— Encontrei-a no Leio, dona Beatriz. Estará errada, por acaso, se está corrij o na próxim a edição, a prim eira não tarda a se esgotar.
Não sendo de m entir, Beatrizinha não contestou a exatidão da data. De volta a Lisboa, aos braços, aos lábios e aos dem ais do m ocetão, m exeu os pauzinhos, tom ou as providências exigidas, nas novas edições da Enciclopédia Leio a data inútil não aparece, afinal datas pouco ou nada significam , o que vale e conta é a vivacidade, a força, o ânim o, a brasa acesa, a fogueira, a j uventude, a m eninice, a m enina Beatriz, assim dizem o povo e o rapagão, a m enina Beatriz.
Estoril, 1981.
Dome de Domitila
José de Dom e* recolheu em seus óleos as cores do am anhecer e as do crepúsculo, os ocres e os am arelos das flores e da caatinga do nordeste. Depois de m uito labutar e de sofrer com valentia conseguiu construir casa em Cabo Frio onde vivia e pintava.
*José de Dome, pintor sergipano.
Chegou à Bahia direto de Estância, disposto a ser pintor, com eçou trabalhando de operário, serrando m adeira, saía às cinco da m anhã, voltava às sete da noite, viveu nas ruínas de um a construção no Rio Verm elho, cuidava do irm ão cego, surdo e m udo, passava a noite pintando o nascer do sol na barra da m anhã, o m orrer do sol na fím bria da tarde, o sol a pino do m eio-dia. José, dito de Dom e por ser filho de Dom itila, rapariga de Porta aberta, Dom e, m orena cor de j am bo, sem nom e de fam ília Para deixar de herança ao filho, deixou o apelido.