Navegação de Cabotagem
Carnaxide, 1992.
As pernas
Enquanto os senhores m ais ou m enos graves discutem econom ia e Ivan* rem em ora peripécias — o manifesto do Congresso Juvenil Estudantil Proletário e Popular, em 1934, foi assinado por ti, por mim e pelo Carlos Lacerda, te lembras? Lem bro-m e, Elsie Lessa recorda, com seu j eito traquinas, a década de quarenta, a vida literária, escola alsaciana risonha e franca, narra histórias, a sala se povoa, Zé Lins entra porta adentro.
*Ivan Pedro de Martins, escritor.
O alm oço em casa de Solange e Luís Henrique** hom enageia os quarenta anos de crônicas (adm iráveis) de Elsie nas colunas de O Globo, a globe-trotter nos atalhos do m undo, sou seu leitor há quarenta anos. Poderia ser hom enagem aos oitenta anos de vida, m as quem diz que ela os cum pre se está na flor da idade, se a cabeça é j ovem , reinadia, e a form osa literata de quarenta é hoj e a m ais bela senhora de Cascais?
**Luís Henrique Pereira da Fonseca, diplomata, Solange, sua mulher.
Antes de entrar na sala em Carnaxide, nos bons tem pos Zé Lins estava na piscina do Copacabana Palace em com panhia de um senhor de fato escuro, colete branco e plastrom , típico intelectual hispano-am ericano. Elsie saía da piscina em m aiô de banho, dava na vista, Zé do Rego cham ou por ela. Viu em mim a tábua de salvação, conta Elsie, se adiantou, me disse: esse cara que está comigo é um colombiano, sujeito importante, sociólogo, amigo de Gilberto***. Ele só fala espanhol e eu não falo língua nenhuma Além de que tenho um encontro agora, tá danado. Me tira dessa converse com ele enquanto vou ali, não demoro.
***Gilberto Freyre.
Apresentada com os devidos rapapés ao fam oso sociólogo, Elsie recusou o uísque, pediu suco de laranj a, caprichou no espanhol, meu espanhol de tango, deitou erudição continental: Gabriela Mistral, Cy ro Alegria, Eduardo Mallea, Max Dickm an, César Vallej o e daí para m ais: Subercaseaux, o do Chile o una loca geografia. Fez as honras da casa a capricho, Zé Lins voltou, ela despediu-se, saiu certa de ter deixado im pressão favorável acerca de sua condição literária.
Decorridos alguns dias, num alm oço da ABI* encontra Zé Lins, o cabelo lustroso, a voz de nordestino arrastada e forte, Elsie quis saber.
****Associação Brasileira de Imprensa.
— E o sociólogo? Voltou para a Colôm bia? Fiz-lhe sala com o m e pediste.
— Foi em bora, sim , gostou m uito de você, deixou até um livro para lhe entregar. Sabe o que ele m e disse? Que se você for tão boa para escrever com o é boa de pernas deve ser um a grande escritora.
Boa de pernas, boa de escrita, j ovem de oitenta anos, Elsie ri, riso de m oleque, eu o ouço há quarenta anos. José Lins do Rego, de novo entre nós, a acom panha, solta a gaitada dos m eninos de engenho da Paraíba.
Panamá, 1973.
Os antituristas
Conselho se pede, não se dá, não sou de dar conselhos m as quem viaj ou e se estrepou, pagou o pato por não aceitar alvitre de quem sabe as coisas, tem deveres para com o próxim o, assim m e sinto. Acresce que, no caso, o conselho não provém apenas de m inha experiência, quem vos ensina a gram ática do globe-trotter, com conhecim ento e prática bem superiores às m inhas, é o senhor Júlio Páride, Cary bé de nom e verdadeiro. Em algum as ocasiões o certo é colocar de lado os preconceitos, despir-se das roupagens da elite intelectual, assum ir a condição de turista, acom panhar o rebanho para não rebentar os chifres no m uro dos equívocos.
No Panam á há um a sem ana, esperando o navio que nos levaria ao Rio, j á havíam os feito tudo e o resto, a dem ora com eçava a ficar chata, eis que Zélia chega do salão de beleza, engalanada, unhas feitas, repleta de prospectos. Propõe partirm os em visita aos índios da ilha de San Blas, os que fazem as m olas*, trabalho realizado com tiras coloridas de tecido costuradas em form a de desenho, ora abstrato, ora representando anim ais, as m olas são o cartão de visita do país. Com práram os em grande quantidade para nossa casa e para presentear am igos, Zélia anuncia: em San Blas, além da beleza das ilhas, do contato com os índios em seu quotidiano, teríam os m olas a preço de banana. Contagiado, parti com Zélia para a agência de viagens.
*Artesanato dos índios panamenhos.
O que sobretudo nos seduzira, a ela e a m im , fora o conj unto arquitetônico form ado por m alocas iguaizinhas às habitadas pelos índios m as dotadas com o conforto dos hotéis de cinco estrelas — a descrição no prospecto colorido despertava entusiasm o, as fotos em cor exibiam cabanas novas em folha em m eio às palm eiras, tentação para os am antes da natureza, dorm ir ali ao m enos um a noite passou a ser a aspiração de nossas vidas. Por um a noite seríam os índios panam enhos na circunstância de m aloca equipada com a tecnologia e a m ordom ia exigidas pelos hóspedes ianques.
O senhor ao guichê, m agro, de m eia-idade, nos inform ou sobre a excursão: partia para as ilhas às nove da m anhã, conduzindo vinte e dois turistas. Vôo curto cruzando o estreito, chegaríam os à ilha onde estavam instalados a adm inistração e o conj unto hoteleiro, dali partiríam os em canoa para a visita às dem ais ilhas, habitadas pelos índios, convívio direto com as tribos, o gozo da ecologia: as danças rituais, os cantos guerreiros, a aquisição de m olas autênticas pagando pouco. De volta à ilha principal, o alm oço de pratos regionais, por fim às 15 horas o regresso à cidade de Panam á. Tudo ótim o, preço conveniente, m as, para nós, não bastava, queríam os prolongar a estada até o dia seguinte, alugar um a das m alocas, nela passar a noite, não éram os turistas, não nos confundisse com o rebanho.
O senhor do guichê nos considerou com ar que m e pareceu entre piedoso e reticente, com certa vivacidade — não fosse ele
o vendedor dos pacotes eu diria que o fizera com insistência —
nos aconselhou a nos contentarm os com a excursão habitual salientou o preço salgado da diária nas m alocas. Maior que a sua foi a nossa insistência, não éram os turistas, j am ais o seríam os, queríam os a m aloca, o preço não im portava. O hom em do guichê estava ali para vender excursões, hospedagens, bilhetes de viagem , j á havia atendido aos reclam os da consciência, suspendeu os om bros, satisfez-nos a vontade.
Na ilha principal apenas algum as habitações, residências precárias da guarnição, m eia dúzia de soldados panam enhos, e o restaurante distante uns cem m etros do conj unto das m alocas. Deixam os a m aleta com a gerente do restaurante, davam -nos pressa, tom aríam os posse da m aloca ao voltarm os, de longe pareciam lindas e confortáveis. Em barcam os nas canoas anunciadas nos prospectos, não eram canoas e, sim , barcos a m otor, visitam os as ilhas plantadas de palm eiras, pitorescas, contactam os com os índios: m ansos cidadãos, com erciantes sabidos.
Duas dezenas de nativos, m ulheres na m aioria, em traj es típicos — soubem os que o grosso da população partia m anhãzinha para o continente em canoas, verdadeiras, sem m otor, no continente os índios laboravam as terras dos ricaços. Ficavam nas ilhas aqueles poucos para o canto, a dança, o com ércio de m olas. Visitam os três ilhas, um a em seguida à outra, a dança e o canto, repetidos, a venda e a com pra de m olas, m ais caras do que as das loj as da capital, pagava-se a cor local, o exotism o. O regresso à ilha inicial, o alm oço fraco, o em barque dos excursionistas no avião ao m eio da tarde, a partida da m áquina voadora. Zélia e eu nos vim os sozinhos, quando digo sozinhos não estou usando de m etáfora, refiro a realidade. A índia que vendia m olas em frente ao restaurante recolhera seu m aterial, fora-se em bora, para onde só Deus sabe. A m estiça de espanhol que dirigira e servira o alm oço fechava o restaurante, preparava-se para partir, restituiu-nos a m aleta, entregou-nos um m olho de chaves, indicou-nos com o dedo o conj unto das m alocas, perguntam os qual a nossa, disse-nos para escolher qualquer delas, estavam todas vazias, éram os os únicos hóspedes. Custou-nos m uito rogo e gorj eta alta obter que prom etesse voltar às seis da tarde para nos servir um prato de sopa, os restos do alm oço.
Tom am os da m aleta, m archando sobre terreno encharcado dirigim o-nos às m alocas. Erguidas no brej o, pouco usadas, quase novas, continham cam a, colchão sobre estrado de m adeira, arm ário em poeirado, roupa de cam a: dois lençóis, um cobertor de lã, úm idos, ali postos sabe Deus quando, o cheiro de m ofo e a nuvem de m osquitos. Mosquito é o que existe de sobra no Rio Verm elho, até nos orgulhávam os, arrotávam os recorde m undial, m as diante da m osquitaria das ilhas de San Blas perdem os a em páfia, reconhecem os nossa m odéstia. Nem na Am azônia, quando por lá andei tirando cadeia, adm irei exércitos de m osquitos assim num erosos e aguerridos. Olham os um para o outro, eu e Zélia, cabiam -nos duas opções: rir ou chorar, preferim os rir e louvar os escrúpulos do senhor do guichê, fizera o possível para m udar nossa decisão, m ais não podia fazer, era pago para vender excursões aos turistas e alugar m alocas a algum louco que por ali aparecesse, fugido do hospício. Aparecêram os dois, Zélia e eu.
Voltam os ao restaurante acom panhados pela vanguarda do exército de m osquitos, zuniam um canto de guerra, o cam po de batalha eram nossos pescoços e nossas faces. O restaurante estava fechado, à falta de cadeiras sentam o-nos no batente da porta, pedi a Zélia para cantar m odas brasileiras, term inei por botar a cabeça em seu regaço, estirar-m e no assoalho, adorm eci, Zélia cobriu-m e o rosto com o lenço m as os m osquitos de San Blas eram com petentes, ficam os, eu e ela, repletos de picadas. A m ulher do restaurante apareceu na hora m arcada, sopa apenas m orna, dois pedaços de peixe, requentados, nem sobrem esa, nem café. De novo sozinhos, Adão e Eva em j ej um entre os m osquitos, regressam os à m aloca, nem m udam os a roupa, estiram o-nos na cam a, a nuvem de m osquitos nos cobriu. In-vej am os os turistas, àquela hora banhados, alim entados, fazendo am or em bom hotel.
Na m anhã seguinte, estrem unhados, fam intos, suj os, o chuveiro da m aloca não funcionava, com o e alm a picados, coçávam o-nos sem parar, aconteceu o inesperado: a chegada de pequeno avião em busca de soldado enferm o, queim ando de febre, no delírio da m aleita transm itida pelos m osquitos. Brasileiros, eu e Zélia, estávam os a salvo, ela por paulista em paludada desde a infância, eu por grapiúna im une às epidem ias. O aviador concordou em nos salvar a vida, pela j anela do aparelho olham os a paisagem , vistas do alto as m alocas faziam efeito, o ideal para um fim de semana de repouso, com o rezava o prospecto ilustrado a cores.