Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 51 de 262

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Lisboa, 1974.

Conheço alguns desses aflitos no Brasil e em Portugal, vivem em correria e ansiedade que seriam dram áticas se não fossem côm icas. Sofrem horrores nas agruras da com petição, da cavação, rastej am no delírio da autoprom oção, oferecem triste, ridículo espetáculo. Para eles o Prêm io Nobel não é sonho, é pesadelo.

 

Lisboa, 1974.

 

Ditaduras

Entram os em Portugal por Elvas, Zélia em punha o volante de um Peugeot 504 repleto de bagagens — naquele então viaj ávam os de navio, a travessia do Atlântico durava um a sem ana de lazer, eu levava para o Rio Verm elho caixas e caixas de livros e de arte popular. Hoj e a viagem dura onze horas de terror num avião, duas m alas de roupas, cham a-se isso de progresso. Recom endo:

— Vam os bem devagar, m eu am or, esta pode ser nossa ultim a estada em Portugal, vam os ver tudo, coisa a coisa, para guardar nos olhos.

Na fronteira a polícia fardada nos interrogara, pretendera abrir todos os volum es, nem em tem pos de Salazar tal absurdo acontecera. Perco a paciência, puto da vida faço o m aior esporro, quando o alferes m e pergunta o que contém o caixão que ele pensa term os escondido no interior do carro, respondo: contém m unição, se quer saber, arm as, bom bas. Por sorte um capitão atende aos m eus berros, leitor de Gabriela pede autógrafo, libera carro, livros, passageiros.

Am o por dem ais essa parte de Portugal, é verão, as casas, as flores, o povo — num a dessas aldeias, na de Grândola, nasceu a canção da vila m orena, sinal para o levante dos cravos. Vam os devagar, Zezinha, ela trauteia a canção de José Afonso, por vales e m ontes vam os.

O pecê português avança para o poder com sede e fom e atropela. O prim eiro-m inistro Vasco Gonçalves se não tem a carteirinha do Partido está decerto entre os encapuçados, conheço as reprises desse film e, todas. Se não bastasse o m odelar sectarism o de Cunhal*, sem paradigm a, outros partidos ditos do proletariado, dirigidos por intelectualoides, grupelhos ainda m ais estreitos, im portaram do Brasil o stalinista Arruda Câm ara para presidir as purgas. No com ando m ilitar Otelo de Carvalho, tão fero herói quão xucro político. Chico Ly on de Castro** conta-m e que os com unas quiseram apropriar-se da Europa-Am érica, ele resistiu, m as não sabe o que poderá vir a acontecer.

*Álvaro Cunhal político português, secretário-geral do PC.

**Francisco Lyon de Castro, editor português.

No Hotel Tivoli — dois ou três andares estão ocupados por retornados angolanos —, Fernando Nam ora m e revela seus tem ores:

— Será a ditadura, a pior de todas, seu Jorge, aquela contra a qual não podes lutar, fazer a m enor crítica. Se a fizeres serás escorraçado, o labéu de vendido, de traidor te m arcará a face. Quem lutava contra Salazar era um patriota, um bravo, contra Cunhal será o últim o dos fascistas. Ditadura de esquerda, vade retro!