Navegação de Cabotagem
Paris, 1948.
Certa m ídia brasileira detesta Pelé e busca em panar-lhe a glória. Para que sua grandeza m erecesse loas ele deveria ser bêbado e m au-caráter, vegetar na m iséria e na atribulação.
Paris, 1948.
Os ídolos
Ao em barcar para a Europa, em j aneiro de 1948, levava na bagagem o desej o de conhecer alguns escritores de m inha adm iração, os que haviam ilum inado com poem as e rom ances os anos da guerra, quem sabe teria a oportunidade de vê-los, saudá-los, talvez conversar com eles, os m eus ídolos.
Anna Seghers, a da Sétima Cruz; Ily a Erem burg, o de A Quedade Paris e dos artigos de fogo e sangue, crônica da bravura e do heroísm o no front russo-alem ão; Mihail Cholokov, o da saga do Don, os rom ances desm edidos; os poetas da resistência francesa, Paul Eluard, "liberdade escrevo teu nome..." e Louis Aragon. Esses os principais. De quase todos m e tornei am igo, tive o privilégio.
Anna e Ily a, am igos m ais que am igos, m e enriqueceram , m e fizeram m elhor. Paul Eluard, fraterno de Neruda, com ele convivi de perto, levei-o a participar de tarefas brasileiras, a falar em ato de solidariedade a Prestes, cuj a liberdade estava am eaçada: Eluard um encanto de pessoa.
Convivi tam bém com Louis Aragon, trabalhei com ele em tarefas partidárias, Aragon fez traduzir e publicar dois livros m eus. Seara Vermelha, antes da edição em livro saiu em Lettres Françaises com xilogravuras de Scliar; para o desconhecido escritor brasileiro, que eu era, um a glória. Com Aragon não fui além da estim a literária e da convivência partidária, por m ais de um a vez esbarram os um no outro: Aragon e sua corte, não nasci cortesão, nasci am igo.
Apenas conheci Mihail Cholokov e de logo o detestei. Levado por Ily a, fui receber na estação os delegados soviéticos ao Congresso de Wroclaw, entre eles estava Cholokov. Saltou bêbado do trem , apareceu um a única vez na sala do congresso, bêbado em barcou de volta para Moscou.
Quanto m ais soube dele m ais dele m e afastei: hom em do aparelho do partido, da intriga e da denúncia, grão-russo chovinista, provocador, contavam histórias de arrepiar a propósito de sua atuação e de seu dogm atism o. Apenas dogm ático, sectário, estreito, ou pior que isso, policial? Não m e arrisco a um a conclusão.
Na sala do II Congresso dos Escritores Soviéticos, em 1954 ao vê-lo da tribuna denunciar confrades, acusando-os de inim igos do socialism o, Anna Seghers, sentada a m eu lado, m urm urava: é um fascista! Não passa de um fascista! Estrem ecia de indignação.
Tão m esquinho, m ísero indivíduo, tão grande, im enso rom ancista! Depois de Leon Tolstoi, pode ter havido alguém tão grande, m as não m aior. Só a epopeia da Guerra e Paz pode se com parar à do Don Silencioso. Nem por lhe repudiar a ação política deixei de adm irar os rom ances de Cholokov. Na luta contra o sistem a soviético, o governo dos com unistas, Solj enitzy n, com o apoio e o aplauso de m uitos, tentou retirar-lhe a autoria dos rom ances — negá-los, im possível —, anunciando que teriam sido escritos por um fulano qualquer. Coloquei a denúncia de quarentena, em luta política toda arm a é válida e não há honradez de grão-russo que se m antenha íntegra: tão grão-russo chovinista Solj enitzy n quanto Cholokov, e aos dois acrescento outro gigante em prosa e verso: Pasternak.