Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 13 de 262

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São Paulo, 1945.

— O Prêm io do Chico foi para a cucuia.

São Paulo, 1945.

Congresso de escritores

O Prim eiro Congresso de Escritores Brasileiros, convocado pela recém -form ada Associação Brasileira de Escritores (ABDE), reunido no Teatro Municipal de São Paulo ultrapassou de m uito os lim ites de festivo convescote literário para ganhar foros de acontecim ento histórico, m arco na luta contra a ditadura do Estado Novo ainda no poder m as j á abalada nos seus fundam entos pelas derrotas m ilitares de Hitler.

Fui despachado da Bahia para São Paulo pelo pecê com a tarefa de colaborar na organização do conclave, tentar im por-lhe a linha política dos com unistas. A cham ada Unha justa daqueles que estavam de acordo com a direção partidária saída da Conferência da Mantiqueira*, pois m uitos dela discordavam e só vieram acolher-se ao redil quando receberam ordens expressas de Prestes, ainda preso m as j á m andando e desm andando.

*Conferência de reorganização do PCB, realizada em 1943, em Minas Gerais.

Presidi a delegação da seção baiana da ABDE (Hom ero Pires, Odorico Tavares, Dias da Costa, Alberto Passos Guim arães, Jam es Am ado, Edison Carneiro, Jacinta Passos, Vasconcelos Maia, entre outros) e fui um dos vice-presidentes do Congresso. O presidente foi o contista Aníbal Machado, escritor respeitado e bem -visto, considerado equidistante das duas correntes m aiores que se debateram no plenário e nos bastidores: a dem ocrática e a com unista.

Da prim eira, constituída por liberais, dem ocratas-cristãos e social-dem ocratas, pode-se dizer ter sido o germ e da UDN**, Partido político de atuação posterior bastante dúbia, e da Esquerda Dem ocrática (depois Partido Socialista). Apoiada por com unistas não-alinhados (Caio Prado Júnior, Mário Schem berg que, aliás, não tardaram a se alinhar), obedecia à batuta de Carlos Lacerda. Carlos rom pera com o pecê em 1942, iniciava o percurso Político que o levaria, em tem po relativam ente curto, ao Governo "O Estado da Guanabara e à chefia civil do golpe m ilitar de 1964.

**UDN — União Democrática Nacional.

A segunda reunia os com unistas ortodoxos, m enos num erosos, porém ativos, atuantes. Entre eles Dy onélio Machado, Dalcídio Jurandir, Moacy r Werneck de Castro, Barão de Itararé (Aparício Torelly ), Raul Riff, Alina Paim . Mem bro do Bureau Político do Partido, Pedro Pom ar deslocara-se para São Paulo com o fim de nos orientar, im pedir vacilações e desvios. Eu m antinha contato diário com ele em encontros clandestinos nos quais lhe transm itia inform ações e ele m e dava diretrizes, ditava ordens.

Levadas pela habilidade e pela cortesia de Aníbal Machado, as duas correntes chegaram a um acordo para a redação do docum ento final, a declaração solene dos escritores brasileiros. Pela prim eira vez, no m anifesto resultante do Congresso, condenou-se a ditadura do Estado Novo sem no entanto m encionar a pessoa do ditador, Getúlio Vargas, na ocasião nosso aliado, dos com unas. Na sessão de encerram ento, Oswald de Andrade, furando o acordo estabelecido sobre núm ero e nom es dos oradores, tom ou da palavra e propôs a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gom es* para a Presidência da República, foi o delírio.

*Brigadeiro Eduardo Gomes (1896/1981), militar e político.

Fora das sessões plenárias e das com issões era a festa e que festa! Ininterrupta, delirante, as rédeas soltas. Coquetéis — recordo anim adíssim o coquetel em casa de Nelson Palm a Travassos, cronista bem -hum orado, dono da Gráfica da Revista dos Tribunais, anfitrião rico e am ável, onde reparei em Zélia pela prim eira vez —, festinhas, danças im provisadas, bate-coxas anim ados, com ilanças, beberanças e, acim a de tudo, a boa fodilhança: com o se fodeu nesse Congresso, inim aginável! Vinícius de Moraes, galã de cinem a, ia de m ão em m ão, m elhor dito de xoxota em xoxota. Tam pouco posso m e queixar.