Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 60 de 262

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Moscou, 1954.

 

Le crapaud

Chegam os à casa de Lluba e Ily a para o alm oço. Lida, a cozinheira, é m inha leitora, se desdobra ao saber que estarei à m esa, com e-se e bebe-se do m elhor em casa dos Erem burg. O dono da casa está ocupado em conferência com um m anda-chuva do Pravda que veio lhe dar as coordenadas do Partido para um a série de artigos sobre política externa, m atéria da qual Ily a é um a espécie de porta-voz do governo soviético. Enquanto aguardam os, bebem os vinho da adega de Goebbels*.

*Goebbels (1897/ 1945), ministro da Propaganda e da Informação na Alemanha nazista.

O Presidente da Academ ia de Ciências, personalidade com acesso aos segredos, telefonara a Ily a para transm itir-lhe notícia sensacional, de prim eira m ão, privilégio de uns raros, está num pé e noutro. Saiu a sentença condenando Beria** à morte? — pergunta Ily a, o telefonem a acontece durante o j ulgam ento do ex- patrão da polícia política. Que Beria nem meio Beria, o acadêm ico perde o com edim ento: falo-te de assunto da maior gravidade e tu me vens de Beria, coisa à-toa. Sei de ciência certa que amanhã pela manhã serão postos à venda nos gastronomes do centro de Moscou os vinhos da adega de Goebbels, aconselho-te acordar cedo, reunir toda tua gente, assim poderás comprar a maior quantidade possível de garrafas.

**Beria (1899/1953), dirigente comunista executado após a morte de Stalin.

Entre os bens valiosos, indústrias, m áquinas, ouro e prata, requisitados pelo Exército Verm elho quando da tom ada de Berlim , levados para Moscou, encontrava-se a garrafeira de Goebbels, a m aior da Europa, a m ais rica em vinhos de classe, confiscados das reservas, das caves m ais bem servidas dos países vinícolas ocupadas pelas tropas hitleristas, sobretudo da França. Guardados durante quase dez anos, transladados para anônim as garrafas, em todas o m esm o rótulo: vinho, sem qualquer outra indicação, foram postas à venda por preço m ais barato do que o pago pelos vinhos da Moldávia ou da Geórgia. Ily a e Lluba m adrugaram , convocaram Lida, a m ãe de Lida, o chofer, as duas secretárias, os pais das secretárias, a filha Irina, o genro, não sei m ais quem , um batalhão — entre eles conseguiram adquirir cerca de oitocentas garrafas, um pouco m ais. Depois a fila engrossou, os soviéticos com pravam e pagavam sem perguntar o que estavam com prando, produto posto à venda logo se esgotava: assim era.

Roleta-russa, a cada garrafa que se abre: que prêm io nos caberá agora? Sej a qual for a procedência, a casta, o ano, a cuvée, sem pre de classe superior, sem pre néctar dos deuses, os vinhos da adega de Goebbels, cuj a venda foi o fato m ais im portante acontecido entre a m orte de Stalin e a abertura do XX Congresso*, com parado com ele a condenação e a execução de Beria não Passavam de faits divers, acidentes de pouca m onta. Enquanto esperam os, degustam os: além dos vinhos o caviar, o salm ão defum ado, os sprots, se ainda não provaram sprots, vão depressa provar para saber o que é bom .

*Congresso do PCUS no qual Kruchev denunciou os crimes de Stalin.

Ily a sai do gabinete, apresenta-m e ao chefão do Pravda, oferece-lhe vinho de Goebbels, o porreta prefere vodca, em borca de um trago, vai-se em bora. Ily a tom a da garrafa do tinto, classifica-o bordeaux, saboreia devagar, busca adivinhar-lhe a safra e o château, o que sabe de vinhos é parte de sua legenda. Enquanto Lida serve a m esa, coloca os pratos fum egantes, Ily a relata detalhes do encontro com o dirigente.

As paredes do gabinete do escritor eram cobertas por gravuras e desenhos de m estres franceses, coleção m ilionária. Em frente à escrivaninha um a gravura de Picasso, Le Crapaud, prova do artista com dedicatória. Ao bater os olhos no quadro, sapo disform e, desintegrado, o hom em do Pravda, teórico do realism o-socialista, estrem ece nas bases, desvia a vista da ignom ínia: a isso os capitalistas cham am arte, exclam a à beira da apoplexia. Com o é possível que o cam arada Erem burg pendure tais excrescências, podridão da burguesia, nas paredes de seu apartam ento? E esse tal de Picasso se diz com unista, é o cúm ulo.

Ily a interrom pe-lhe a catilinária:

— O cam arada sabe o título dessa gravura, o que ela representa?

— Não, não sei... O que sei...

— Representa o im perialism o norte-am ericano.

Hum aniza-se o ideólogo, volta a contem plar o quadro, balança a cabeça, livre da am eaça de infarto, pratica a autocrítica:

— O im perialism o norte-am ericano? Agora entendo, Picasso é m em bro do Partido francês, não é? Cam arada direito, que talento!